michele contel

sobre dores e amores desde 2010

logo eu, que amava escrever

eu nesse exato momento

não sei precisar qual foi a última vez que escrevi algo que teve algum impacto na minha própria existência. não me lembro quando foi que eu arranquei algo que estava grande demais para o meu peito e transformei em textos longos e cheios de palavras combinadas. olhei meus rascunhos aqui do blog, aquele mar de textos nunca finalizados e que, caso ou outro, serviam como uma espécie de transcrição de uma sessão de terapia. constato o óbvio:

eu não me lembro quando foi a última vez que escrever foi o que já significou um dia, pra mim. 

veja bem, eu estou trabalhando muito. muito mesmo. talvez seja a minha época mais cheia de trabalho e, não sei se você sabe, caro leitor imaginário, mas eu trabalho escrevendo. felizmente, escrevo sobre coisas que eu até gosto, mas não amo. não que eu acredite ainda que eu precise amar o que faço. mas acho que escrever tanto, todos os dias, sobre assuntos que gosto, minou toda a minha vontade de escrever pra mim. acho que fiz tanto o que amo que passou a detestar meu ofício. 

confúcio, você me prometeu! 

aqui no blog, esse mausoléu virtual que já foi muito frequentado outrora, mas que hoje acumula poeira, alguns gatos pingados e uma zeladora indisciplinada, eu já escrevi sobre muitos problemas e dilemas. acreditei, por muito tempo, que o sofrimento era inerente a inspiração. vocês sabem, até sobre isso especificamente eu já escrevi. mas se eu precisava da angústia para criar, por que é que eu não consigo mais? vivemos um desespero coletivo, uma ansiedade sofrida em grupo e, ainda assim, nada de vontade de escrever. de pensar que eu encontrava até mesmo numa mensagem não respondida drama suficiente para um longo texto.

constato que não me falta problema. me falta paixão, mesmo. 

estou vivendo um momento em que eu pondero todas as minhas palvras. apaguei meu twitter velho e comecei um novo, para eliminar todos os pensamentos verbalizados há mais de uma década. dei uma boa sumida do instagram porque não acredito que tenha algo realmente interessante pra falar. venho lendo mais do que li no ano passado inteiro e, portanto, achando que tudo que precisava ser escrito, alguém já o fez. 

mas aí, chega a segunda-feira. as demandas por textos que eu executo em poucos minutos. o calendário editorial lotado. as reuniões de pauta. enquanto minha pessoa física se sente exausta até mesmo para escrever um desabafo, minha pessoa jurídica faz mais um texto sobre algo que a internet inteira já leu, mas que a marca para a qual presto serviço precisa se posicionar. respiro fundo, tomo três copos americanos de café e digito. tac tac tac tac tac. mais uma reunião. um brainstorm aqui, um copy lá. mais um café. tac tac tac. mais um expediente finalizado. tomo banho, deito no sofá, assisto big brother - algo que também faz parte do meu trabalho, veja só. deito na cama, leio até pegar no sono. antes de me entregar aos deuses dos sonhos, suspiro. "que saudade de escrever assim", lamento. 

e aí, mais um dia idêntico ao anterior começa. 

tac tac tac tac. 

Livros lidos em janeiro

 Ter ganhado um Kindle no Natal mudou meus hábitos de leitura. Só em janeiro eu li 6 livros - feito que não acontecia desde a adolescência. Troquei a visita aos instas de fofoca quando me deitava, pela leitura antes de dormir - e quando menos percebi, já tinha atingido minha 25% da minha meta anual de leitura. E como li livros realmente bons, vim aqui dividir essas indicações com vocês.

Jhumpa Lahiri Aguapés e kindle

🦗 TRÂNSITO, Rachel Cusk. 

Eu fiquei obcecada pelo Esboço, o primeiro livro dessa trilogia. Talvez por ter ido com tanta expectativa, demorei pra me sentir realmente dentro da leitura, coisa que o Esboço fez facilmente. A escrita da Rachel continua incrível e amo como a gente conhece a protagonista por meio de suas conversas e suas perguntas. Apesar de não ter sido o favorito do mês, sem dúvidas é uma grande leitura - e não vejo a hora da tradução de Kudos, o último, chegar por aqui. 

🎈 ALTOS VOOS E QUEDAS LIVRES, Julian Barnes. 

Um livro que traça um paralelo entre os primórdios do balonismo e o luto. A euforia de alcançar o céu e a dor de perder a sua pessoa no mundo. Um livro que te faz refletir sobre vida, morte e sobre relações. Mexeu tanto comigo que virou até texto (que você pode ler no post anterior). 

🛏️ UM TETO PARA DOIS, Beth O'Leary. 

Depois de um livro pesado, eu precisava de uma comédia romântica bem docinha, bem levinha e bem gostosa. Confesso que não é tão levinha quanto parece (fala muito de relação abusiva e pode até trazer alguns gatilhos), mas que delícia que foi ler Um Teto Para Dois. Eu simplesmente devorei o livro e só parei de ler quando cheguei na última página. Fazia muito tempo que isso não acontecia - e o mérito é todinho de Tiffy e Leon. 

🇮🇳 AGUAPÉS, Jhumpa Lahiri. 

Digo sem exagero algum: foi um dos melhores livros que li na vida. A escrita e o desenvolvimento de personagens de Jhumpa Lahiri é algo genial e a forma com que ela imprime sua cultura em todas as suas obras é algo incrível. Nesse livro, a gente não só viaja pelas vilas de Calcutá, como aprende sobre a política na Índia, sobre os movimentos naxalistas e comunistas do país, sobre o papel da mulher naquela sociedade. É um livro tão incrível que e eu terminei o leitura aos prantos. Um pouco porque não estava preparada para o final, mas principalmente não querer dar adeus à escrita da Jhumpa. 

💪🏻 CLUBE DA LUTA FEMINISTA, Jessica Bennett. 

Depois de ficar arrasada com Aguapés, eu decidi que não leria outra ficção na sequência, então, fui ler esse que me foi tão recomendado. Acho que foi tão, tão recomendado, que achei meio... Superestimado. É claro que ele tem informações importantes, faz recortes de raça, 45679 referências... Mas atrela gênero a órgão ¯\_(ツ)_/¯ , quero dizer... Se você é tão progressista, porque raios sua narrativa ainda está presa a uma ppk? 

💯 CEM, Heike Faller e Valerio Vidali. 

Um livro de ilustrações que traz as respostas de pessoas dos 3 aos 100 anos para a pergunta: "O que você aprendeu na vida?". É lindo, tanto o projeto editorial quanto as diferentes lições que podemos aprender até os 99 anos. Um ótimo livro pra dar de presente :)

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Post feito lá no meu Instagram (@michelecontel) relatando um pouco das minhas leituras. 

Sobre pedidos de namoro e sobre terceirizar decisões

Eu nunca recebi uma cartinha me pedindo em namoro, na escola. A cartinha em folhas coloridas, com duas simplórias caixinhas com um "SIM" e um "NÃO" acima de cada uma delas, nunca chegou na minha mesa. Mas chegava na das minhas amigas. Uma delas, inclusive, tinha que marcar “não” em pelo menos três cartinhas até, finalmente, receber o bilhetinho do carinha que ela gostava. Quando acontecia, ela marcava um “x” com sua caneta gel favorita, dobrava com todo o cuidado do mundo e entregava a decisão ao agora-namorado com uma discrição digna de agentes secretos. Eles mal se olhavam até o pretendente confirmar a alternativa assinalada e, quando ele percebia que o “sim” havia sido marcado, mandava um sorriso e voltava a atirar bolinhas de papel nos outros colegas de sala. 

Mas comigo isso nunca rolou, não. 

Ilustra: Bodil Jane

Dei meu primeiro beijo aos 13 anos. Quase 14, já que foi no dia 27/03/2005 e faço aniversário no dia 24/05 e ele só rolou porque foi roubado. Foi aquela coisa que, quando terminou, me deixou estupefata. “Eu beijei esse menino? É sério?”. Eu não era apaixonada, não tinha escrito sobre ele no meu diário e muito menos imaginado nós dois no cinema. Até esse fatídico dia, eu já tinha enviado muitas cartinhas a vários meninos por quem fui apaixonada platonicamente. Se você me perguntar, lembro o nome deles até hoje: Luiz Guilherme, Weverton e Marcos Vinícius. Mandava figurinhas de bala Freegells com cantadinha do Frajola. Mandava cartas tão apaixonadas que só outra garota de 11 anos poderia entender a intensidade. Já mandei bilhetes. Já fiz declarações nos cadernos de enquete. Mas pedir em namoro, ou ser pedida, jamais. 

Alguns meses depois do fatídico primeiro beijo e de mais dois outros, eu fui pedida em namoro pela primeira vez. Não foi com cartinha. Foi no cara-a-cara e, menina, eu travei. Eu queria dizer não, mas disse sim (guardem essa informação porque ela se repetirá no futuro dessa narrativa). Terminei exatamente uma semana depois e, sem vergonha alguma, cunhei a famosa frase “não é você, sou eu”. Hoje eu entendo que a frase que faria mais sentido seria “não fui eu e, sim, você”. 

Dois anos depois, aos 16, me apaixonei (de verdade) pela primeira vez na vida. Nos conhecemos no Orkut e passávamos madrugadas à dentro nos falando. Trocávamos músicas .mp3 pelo MSN. All Time Low, Panic! At The Disco e Fall Out Boy. Indicávamos livros um para o outro. Oscar Wilde, Alice e os russos. Nos abríamos sobre absolutamente todo e qualquer assunto. Foi a primeira vez que alguém me conheceu tanto, mesmo sem me ver. Quando nos conhecemos pessoalmente, mais ou menos 6 meses depois da nossa primeira conversa, ele me pediu em namoro. Com aliança e sorriso de orelha a orelha. Eu já sabia que o pedido viria - e aceitei de coração aberto, cheio, feliz. 

Três meses depois, ele terminou comigo e eu conheci o sabor amargo do término. Da fossa. Da vontade de chorar até o mundo acabar. Mas, dois meses depois, conheci meu segundo namorado. Sou de gêmeos com ascendente em sagitário, amigas. Se a lua em peixes me faz sofrer com intensidade, meu sol e ascendente me fazem superar rapidinho. Velocidade é a minha palavra, como boa filha de Mercúrio, que sou. 

Voltando ao meu segundo namorado, éramos amigos e saíamos todo o fim de semana. Era eu e cinco ou seis caras tontos que me faziam rir até chorar. Eles, que eram mais velhos e já dirigiam, se revezavam para me buscar em casa. Quando menos percebi, era esse meu amigo quem sempre me buscava e, sem grandes movimentos, nos apaixonamos. Dessa vez, um mês depois do primeiro beijo, fui eu quem pedi ele em namoro. Era meu aniversário e eu tinha certeza que ele me pediria em namoro naquele dia, já que tinha conhecido sua família. Era 23h quando eu o fiz porque percebi que ele não faria. Pedi. Ele aceitou. Quase completamos 3 anos de namoro, antes de eu terminar. Tínhamos sonhos diferentes e apesar dele ser uma das pessoas mais legais do mundo, eu sabia que eu não cabia no futuro que ele queria. Eu queria o mundo e ele queria… Bem, até hoje eu não sei completar essa frase. 

Duas semanas depois, saí com um cara e, no primeiro encontro da minha sonhada vida de solteira, ele me pediu em namoro. Soa familiar, não? Mais uma vez, eu fiquei desnorteada e, sem saber o que respondia, respondi que sim. Eu tinha 19 anos e não muito traquejo social. Meu feminismo não existia e minha segurança era nula, então, eu simplesmente não consegui dizer não. Levou um ano para eu terminar (ele era uma pessoa incrível e que tenho um carinho enorme até hoje) porque não era pra eu ter namorado. Eu não queria. “Não é você, sou eu”. É que não fui eu. 

No meu terceiro namoro, foi eu quem o pediu em namoro, de novo. Estávamos saindo há semanas, ele visivelmente apaixonadíssimo (mais que eu, até) e decidi que seria legal tentar. Pedi, ele aceitou e comecei o meu relacionamento mais intenso. E entre idas e vindas e voltas e retornos e danças e tropeços e muitos machucados, eu terminei. E foi a coisa mais difícil que eu fiz na vida, até aquele momento. Foi tão, tão difícil, que demorei vários anos para namorar de novo. Antes de ao menos pensar em outra relação, eu precisava me re-conhecer. Tudo tão intenso - e complicado - que eu esqueci um pouco quem era a Michele. De verdade. 

Vocês podem acompanhar todos os meus textos de 2014 em diante, para entenderem. E se você me lê desde sempre, sabe exatamente como tudo foi difícil. Tem tudinho aqui no blog, literalmente como um diário público. Tem minhas declarações de amor eternos, tem minhas dores e angústias. Apesar de não querer romantizar abuso, eu preciso dizer que nesse caso a dor me fez aprender algo que eu não sabia, até então: a me priorizar e não fazer absolutamente nada que eu não quisesse fazer ou não tivesse certeza. 

E então, 2018.

*música romântica de fundo*

Em 2018 eu já estava muito bem resolvida da minha vida. Amava ser solteira, amava a minha rotina, amava as surpresas que as noites me rendiam e já sabia lidar com frustrações e domingos solitários. Estava bem, estava feliz, estava me amando e principalmente, estava completa. Mas aí, como um roteiro de comédia romântica, eu conheci meu atual namorido. Nos conhecemos, saímos várias vezes, nos apaixonamos. Ele passou a fazer parte da minha vida e dos meus eventos e eu dos dele. Já estávamos “namorando”, mas eu, como uma garota do interior que gosta de rótulos, que só se sente confortável em ter certeza das coisas (Meio do Céu em Virgem), chamei ele no canto e envolvidos pelo álcool e com os olhos apertados por ser tarde da noite, eu o pedi em namoro. Ele rolou os olhos e disse: mas já não estávamos namorando? Eu fiz que não com a cabeça. Expliquei que só valia quando era definido. Ele deu risada. "Que bom que você pediu, então". 

Com isso, com esse passeio por toda a minha vida amorosa, eu constato que eu gosto de ter o controle das coisas. Principalmente no amor (vênus em touro e mercúrio em touro). Eu odeio esperar que decidam qualquer coisa por mim. Se eu não gosto que escolham minha comida, por que é que eu vou gostar que escolham o momento certo de eu começar um relacionamento? Se quando adolescente eu não conseguia falar não, com o tempo eu aprendi que minha vida era somente minha e que ninguém além de mim deveria decidir qualquer coisa em meu lugar. 

Eu sei que o pedido de namoro é emblemático e que a gente sonha com isso. Sei que tem mulheres que nunca tiveram essa experiência e que faz sim sentido pra elas. Eu entendo, eu respeito e eu concordo. Mas pra mim, pela minha experiência, soou como invasão. E eu percebi, de um jeito não tão poético, mas bastante efetivo, que não tem nada mais romântico do que ser a dona da sua história. 

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