"Você sumiu"

Às vezes a gente some, mesmo. Fica um pouquinho dentro do casulo para recuperar as energias. Se esconde no canto do quarto pra poder chorar baixinho e aumenta o volume do som pra ninguém escutar alguns soluços.

A gente some porque não quer preocupar, não quer explicar, não quer ser peso. A gente quer ser apenas sorriso no rosto, melhor companhia para fazer qualquer coisa e sinônimo de festa. Quando nos sentimos diferentes disso, a gente some.

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É que de vez em quando, nem a gente tá se achando. Nos olhamos no espelho e não reconhecemos aquela imagem que há tanto era familiar. Dizemos algumas palavras que nunca saíram da nossa boca antes e até reproduzimos alguns discursos que juramos nunca falar. A gente some pra poder se reencontrar, dar as mãos e voltar para o mesmo caminho. Às vezes devagarinho, pra dar tempo de pegar pelo trajeto tudo o que foi deixado no processo de sumiço.

Ideias, filosofias, amor(es), confiança.

"Você sumiu", mas é que eu precisava me lembrar de quem eu era. Precisava acender a luz para me dar conta da bagunça em que estava vivendo e, assim, ter uma ideia de como começar a arrumação. Não quis chamar ninguém pra ajudar na faxina porque a bagunça é toda minha. Por isso, sumi.

A gente some.
Mas a gente sempre volta, também.
Pode até demorar e, no processo, sofrermos algumas mudanças.

Mas a gente sempre volta.

Por que aceitamos encontros horríveis e não vamos embora?


Há algumas semanas, um conto publicado na New Yorker viralizou. “Cat Person” conta a história de Margot, uma garota de 20 e poucos anos que trabalha em um cinema cult, flerta com um cara que estava comprando um ingresso e ficam trocando mensagens por um tempo, antes de marcarem um encontro. Contrariando as expectativas da protagonista, o date é meio ruim, mas ainda assim, ela vai pra casa dele, afinal, eles trocaram mensagem por muito tempo e não era possível que o encanto não fosse reaparecer. Só que não reapareceu. Já no apartamento dele, ela percebe que não estava mais interessada, que ele nem era tão bonito quanto ela se lembrava e, apesar de todas as decepções da noite e da conclusão de que ele não era tão legal assim, ela transa com ele. E é uma bosta.

O conto viralizou, a princípio, porque traz na narrativa uma história que quase toda mulher já viveu: a do sexo ruim porque “já estava lá mesmo”. Se me permite o spoiler, depois de transar com o indivíduo, Margot some porque não curtiu o rolê, ele dá uma surtada por mensagem e chama ela de vagabunda porque não soube lidar bem com a rejeição — mais um fator que nos promove identificação. Eu indico a leitura porque esse conto incomoda, já que imediatamente você se lembra de algum date do tipo. E do famoso sexo “já to aqui mesmo”.



Cat Person abre uma discussão sobre encontros e como lidamos com eles. Após a leitura, eu pensei muito sobre a forma com que eu enxergo um date e cheguei a conclusão de que por mais que você vá para um, sem expectativa, você tem expectativas. Quer dizer, ainda que você não saia de casa esperando por uma noite incrível, você quer que aquela noite seja incrível e não importa o quanto suas expectativas estejam baixas, elas existem. Quando estamos em um date, nós precisamos lidar com as nossas e com as do outro e esse é o grande lance (e talvez problema?) das relações no geral: os alinhamentos de expectativas. Às vezes o que é incrível para mim é péssimo para o cara e vice-versa e, por isso, o diálogo é imprescindível em qualquer situação que envolva essas duas pessoas. No date, no pós-date e no sexo, principalmente.

E então, chegamos ao caso do Aziz. Se você não acompanhou a história, eis o resumo: uma fotógrafa de 23 anos relatou para um site que foi abusada pelo Aziz Ansari e teve a pior noite de sua vida com ele. A internet pegou fogo: como assim Aziz Ansari, um cara que foi ao Globo de Ouro com o broche do #TimesUp? O cara que roteirizou um dos episódios mais geniais sobre privilégio masculino da história das séries americanas? O cara que escreveu Modern Love? Não fazia sentido e eu custei a acreditar que o meu Aziz Ansari estava morto. Quer dizer, que ele era um abusador em potencial.

Então, fui ler o relato da fotógrafa.


Longe de mim querer silenciar uma mulher, até porque esse date pode ter sido traumático pra ela em diferentes níveis (emocionais, físicos, enfim). Porém, pelo seu próprio relato, ela não foi abusada: ela teve um encontro muito ruim. E isso também é problemático.

No texto, fica nítido que as expectativas estavam completamente desalinhadas e enquanto ela vivia um encontro horrível, ele estava achando que estava tudo ok. Enquanto ela estava desconfortável, agoniada e vivendo um verdadeiro terror com luz baixa, música ambiente e um ator famoso do lado, ele estava achando que estavam no ápice da noite.

Sabemos que homem hetero é egoísta em sua grande maioria, principalmente quando o assunto é sexo. Mas, ainda assim, seria certo colocar Aziz Ansari no papel de abusador e ensacá-lo junto com Harvey Weinstein, Woody Allen e cia? Relativizar esse date ruim e dizer que ele não foi abuso, me coloca na posição de “passadora de pano”? Ou eu simplesmente estou enxergando-o como “mais um homem heterossexual?”.

Pelo relato da fotógrafa, Aziz foi péssimo e fico bem triste em saber que “meu Aziz Ansari” não é o cara perfeito que eu pensei que fosse, e sim “só mais um homem heterossexual querendo transar”. É óbvio que ele percebeu que ela não queria, mas segundo a lógica de um homem-heterossexual-ensinado-que-ele-pode-tudo-e-mulheres-estão-aqui-para-isso-mesmo, “eles já estavam no apartamento dele, era só relaxar”. E sabe o que é problemático nisso? É que nós já fizemos o papel da mulher que “já estou aqui mesmo, é só relaxar”. Nós já sucumbimos a uma vontade que não era compartilhada e apesar de ser consensual e não configurar abuso, deve ser discutida sim.

Sexo é um assunto que exige diálogo. Mais do que qualquer outro. Se esse desalinhamento de expectativas é nocivo em relações, nas sexuais seus danos são ainda maiores. Essa situação, tanto a do Cat Person, quanto a do Aziz me fez pensar que compulsivamente ou não, estamos nos desrespeitando apenas para não ir contra a vontade de uma segunda pessoa. E é por isso que essa discussão, que só veio à tona após a polêmica com um ator queridinho por homens e mulheres, é importante.

Com essa exposição e intrínseca reflexão, eu te pergunto: por que é que nós nos sujeitamos a viver dates ruins quando claramente não os queremos? É por causa da heterossexualidade compulsória? É sobre como nós, mulheres, fomos ensinadas desde sempre que devemos satisfazer nossos parceiros e tudo o mais? É porque estamos realmente desiludidas a ponto de aceitar qualquer merda que aparece?

Homens precisam entender que essa “culpa” e essa pré-disposição em dizer sim, que nós mulheres temos, é uma herança cultural de uma sociedade machista. Parece mais do mesmo, mas a gente repete porque a galera ainda não aprende: homens precisam entender que “não é não” e que, muitas vezes, esse “não” saiu da garganta de uma forma tão dolorida que quase a rasgou. Eles precisam entender que temos vontades independentes das vontades dele.

Eu acredito que o caso do Aziz é importante para colocar essa discussão na mesa do bar dos caras. Que um “date ruim” pode colocar em xeque uma carreira incrível e arranhar uma imagem que era intacta e fez com que toda a sua obra fosse contestada. Além disso, acredito que o assunto, junto com Cat Person, serviu para que nós, mulheres, tivéssemos um pouquinho mais de voz quando o assunto é date ruim. Nós não precisamos nem de cara bosta, nem de date bosta, nem de sexo bosta e muito menos um amor meio bosta. O não pode sair dolorido da garganta, mas agora, pelo menos, ele sai. Seja em forma de conto, ou em textos com alcance mundial.

Texto publicado, originalmente, em janeiro de 2018, no Medium

No sentir, sempre fui tormenta. 

Sempre estive apaixonada e sempre foi de forma intensa. 
Meu coração nunca ficava vazio e minhas expectativas não me deixavam em paz.
Eram como relâmpagos em noites escuras. Iluminavam, mas davam medo, também. 

Acreditava apenas no amor vermelho, vivo e que fosse forte o bastante para fazer o coração bater descompassado.
Por isso, sempre vivi amores fulminantes. 
Aqueles que vinham do nada e (me) levavam tudo.

Vivia novas paixões todos os dias e da forma mais intensa possível.

Furacão.

No começo doía bastante, mas depois aprendi a enxergá-los como uma fase entre dois tempos.
Do céu cinza ao arco-íris. Do barulho alto do trovão ao (quase) silêncio da brisa.

Aos poucos e depois de muita tempestade,
meus amores de tormenta viravam calmaria.



Quase que como um respiro para que eu tivesse tempo de reconstruir a cidade depois dos estragos da chuva forte, vinha a vontade de deitar na rede e aproveitar o silêncio que o bom tempo e a solidão oferecia. O vento soprava em meu ouvido e me dizia para acalmar meu coração, porque amores deveriam ter gosto de nuvem e barulho de sussurro.

Fechei os olhos,
senti a brisa
e de repente,
sozinha,
me vi em constante calmaria.

Sombra, brisa, mar calmo e tempo firme.
A paisagem era tão linda quanto o sentimento que ela trazia.
Não tinha casa para reconstruir e nem móveis para arrastar.
Era só sossego.
Tranquilidade.

Meu sentir, que sempre foi trovão, se tornou vento fresco em dia quente. 
Respiro. 

Suspiro. 

[sobre sentir e amar com (c)alma]

A primeira coisa que postei no Facebook, em 2017, foi uma frase do Neil Gaiman, em que ele diz: 

"Hug too much. Smile too much.
And, when you can, love".
E, como eu disse nesse texto aqui, foi exatamente o que eu fiz.
Em 2017, eu amei em toda oportunidade que tive. 

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Janeiro começou em companhia da Camila, minha amiga de Araçatuba. Foi a primeira vez, em quase dois anos, que eu tirei um dia inteiro só para conhecer São Paulo. Me apaixonei pelos prédios cheios de histórias do centrão, me encantei com o tamanho da Catedral da Sé e fiz todo um roteiro turístico que há tempos eu ensaiava.  

Em fevereiro, tive o melhor carnaval da minha vida. Grande parte das minhas melhores amigas ficaram em casa e foi a melhor coisa do ano inteiro. Ainda que eu tenha sido roubada e ficado sem celular por um tempo, foi tudo muito incrível, desde o processo de montar as fantasias, até o bloquinho, de fato. Me aproximei ainda mais de pessoas que sempre foram importantes e poderia até dizer que isso foi o preview do que seria o restante do ano: laços confortavelmente apertados. 

Pat e eu, em um dos dias de carnaval

Em março, eu mudei de emprego. Sai de um lugar que eu realmente amava o que fazia e trabalhava com uma das minhas melhores amigas, para um lugar que poderia me ensinar coisas diferentes - e, desde o início, minha mudança para São Paulo foi motivada pela procura de crescimento profissional. Contrariando minha mãe que me disse mil vezes para "não trocar o certo pelo duvidoso", fui. E não me arrependi.

Em abril, conheci uma pessoa que me fez relembrar sentimentos que eu não sentia há, pelo menos, dois anos. Me lembrou da leveza dos começos de relacionamentos, da delícia das descobertas de outro alguém. Do quanto era gostoso fazer planos e de receber mensagens bonitinhas sem esperar. Ali, eu relembrei as borboletas no estômago, o rosto corando com o olhar correspondido e todos os outros clichês românticos que tanto gostamos. Em abril, me apaixonei de verdade. 

Em maio, do céu, eu fui ao inferno - e, talvez não coincidentemente, maio é o mês do meu inferno astral. Tive problemas pessoais, financeiros, amorosos e tudo o que parecia certo, de repente, desandou. Como acredito mesmo nessas coisas astrológicas, eu escrevi uma nota, em um dos meus cadernos, sobre o que foi aquele mês: "Inferno Astral é igual ano 9: tira da sua vida tudo o que é para ser seu. A gente, na hora, não entende - mas não demora pra fazer sentido: tanto a dor, quanto o rompimento". Em maio, fiz 25 anos e, por sorte, pude comemorá-los ao lado de pessoas incríveis. 

Em junho, meu "pseudo-relacionamento de três meses" acabou e, com ele, um dos planos que fiz lá atrás: uma viagem para Porto Alegre. Com as passagens compradas e sem nenhum roteiro alternativo traçado, decidi ir de qualquer forma. Acionei amigos virtuais do passado e outros gaúchos semi-conhecidos e fui. E foi incrível! Tanto a viagem, que contou com a participação de pessoas que se tornaram muito importantes, depois disso, quanto o simples fato de me desafiar a cumprir um plano traçado a dois, sozinha. Foi em junho que percebi o quanto eu sou feliz comigo mesma. Em junho, eu me amei mais que qualquer outra pessoa. 

Redenção, Porto Alegre. A minha primeira viagem 100% sozinha

Em julho, eu fiquei amiga de uma das pessoas mais queridas que já conheci na vida e que me mostrou que eu não estou sozinha em São Paulo, não. A Fernanda não só se fez presente como nenhuma outra pessoa fazia, como me trouxe outras pessoas incríveis a quem eu posso recorrer em qualquer situação, seja urgência ou um convite sem vergonha pra ver filme ruim no cinema. Foi ali que começamos o que, apesar de chamarmos de squad, é na verdade uma grande família.

Em agosto, eu me reaproximei do amor de abril, mas na condição de esclarecimentos, conclusões e encerramentos de ciclos. Lavamos roupas sujas e tivemos uma finalização linda, carinhosa e gentil. Apesar de importante, essa não foi a melhor notícia do mês oito, não. Em agosto eu tive a confirmação de que teria um livro publicado pela Companhia das Letras e, consequentemente, um dos meus maiores sonhos de vida sendo realizado. Para encerrar as grandes emoções do mês em grande estilo, em agosto, também, descobri que seria tia pela segunda vez. 

Em setembro, eu conheci outra pessoa importante que me fez exercitar minha empatia para alguém que tinha problemas similares - ou até piores, às vezes - que os meus. Também foi o mês em que eu comecei a correr, consegui atingir 5k, mas parei dois meses depois :(

Em outubro, eu realizei outro sonho de vida, que foi ver um show do Paul McCartney. Mais uma vez, fui sozinha e, de novo, foi incrível. Vivi o show do meu beatle favorito em sua totalidade e vê-lo foi uma experiência que eu tenho certeza que lembrarei até quando for velhinha.

Em novembro, uma grande amiga que a internet - e a Kipling - me deu, me fez a pessoa mais feliz do mundo com um presente extremamente sensível, que foi o ingresso do show do Sigur Rós. Esse show e o fato de eu tê-lo ganhado de alguém tão especial, como a Mari, foi uma das coisas mais lindas que eu vivi na vida.


Em dezembro, eu tive a constatação de que minha autoestima nunca esteve tão boa e isso me fez imensamente feliz. Terminei uma relação que era gostosa, mas não me oferecia a profundidade que eu queria. Finalmente eu disse não a um amor que me foi oferecido, por saber que eu merecia mais. Em dezembro eu recebi minha família em São Paulo, realizei o sonho da vida do meu pai, que era conhecer o estádio do Corinthians, e tive um Natal realmente incrível.


Em 2017, eu aprendi a amar.
A me amar. 
E essa foi a lição mais linda que eu poderia ter aprendido. 

Sem querer, eu segui à risca a primeira frase que postei no ano. 

E que bom. ♥
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Feliz ano novo, gente! :)

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