. 14/10/2019 .
Eu, assim como 98% de toda a internet nesse momento, estou obcecada pela Phoebe Waller-Bridge depois de assistir Fleabag. Eu não vou falar mais um "A" sobre essa série porque todo mundo já falou “meu, você precisa assistir Fleabag” e eu, provavelmente, fui uma dessas pessoas. Mas vou falar sobre o quanto o trabalho dela está na minha cabeça, desde que me peguei apaixonada pelo hot priest, por batom vermelho e porquinhos da índia.

Desde que assisti Fleabag eu fiquei pensando sobre o meu trabalho criativo. Sobre a minha vontade de escrever um novo livro. Sobre a minha narrativa. Sobre as vendas do meu primeiro livro. Sobre sucesso. Eu, assim como você, provavelmente, me cobro demais. E se uma parte de mim ficou extremamente feliz e completa com o simples fato de ter lançado um livro (e fiquei. Ainda é uma das minhas maiores felicidades de vida), eu também me cobro por não ter estourado e não ter virado um sucesso, como no fundo, lá no fundo, eu esperava que acontecesse. Aquele eterno sentimento de que "não somos bons o bastante", sabe?

Reprodução: Carla Llanos
E aí voltamos à Phoebe Waller-Bridge.

Quando assisti Fleabag, desde o primeiro episódio eu fiquei me dizendo “caramba. Como eu queria ter escrito isso!”. Achei profundo, irônico, ácido, dolorido, engraçado, tudo assim, na mesma proporção e de um jeito genial. Me perguntei, inclusive, se eu seria capaz de escrever algo tão bom. Comparei minha primeira escrita com a masterpiece da artista.

Ontem, porém, eu assisti Crashing (tem na Netflix!). Outra série escrita e estrelada pela PWB, em 2016. E, surpreendemente, eu não achei boa. É divertida, tem umas nuances interessantes, mas… É isso. Não é impactante. Não é genial. É legalzinha e, às vezes, quase boba. “Como assim essa bobeirinha é da PWB?”, me perguntei.

E aí eu tive um estalo que me serviu como uma injeção de ânimo para tentar voltar a escrever nesse blog: nem todo trabalho é nossa masterpiece e tudo que sai da gente, muda. Tudo o que fazemos, em questão de trabalho criativo, é reflexo de nossas vivências e, portanto, sempre serão muito diferentes. Em Crashing, o estilo da PWB é o mesmo de Fleabag, porém os assuntos abordados, o texto e as estórias são muito diferentes. Hoje, me pergunto: “o que será que ela viveu para poder escrever Fleabag?”. E eis a resposta, de uma forma simples demais e talvez subjetiva: ela viveu. Pronto. Eis a resposta.

Nossos trabalhos são reflexos de nossas experiências e, portanto, únicos.

PWB e sua chatíssima Lulu
Provavelmente, na época em que ela escreveu Crashing, ela considerou um trabalho incrível, afinal, ela deu ele para o mundo. Foi assim com meu livro. Na época em que eu o escrevi, uma época tão diferente do meu hoje, eu também o considerei lindo. “Meu presente para o mundo. Para as mulheres que, assim como eu, amam todos os dias”, eu disse. E foi mesmo.

Naquele momento, ele era eu. Hoje, eu sou alguém diferente e, portanto, não faz sentido eu querer olhar para um trabalho concretizado, com os olhos que tenho hoje. É claro que não vou achá-lo genial ou incrível porque ele foi uma catarse, não é mesmo? Eu falava de amores efêmeros e, hoje, eu vivo um amor calmo, tranquilo, estável e também gostoso. Mas são duas histórias diferentes, ainda que ambas sejam bonitas.

É estranho quando um trabalho meu não me representa, mais. Mas faz sentido, no final das contas. Nós mudamos todos os dias. Literalmente. Dia após dia estamos mais velhos e com muito mais sentimentos que antes. Eu amei meu primeiro trabalho, assim como acredito que a PWB tenha amado o seu. Mas, agora, abro meu coração e espero pelo próximo.

E quem sabe ele não vira a minha masterpiece, né?
(Pelo menos, por um momento).

Sobre mudanças e criações