"Meu ano de descanso e relaxamento" e meu ano de depressão


2019 foi um ano muito bom, se falarmos (exclusivamente) de leitura. Diferentemente do ano anterior, em 2019 eu consegui ler vários livros. Foram teorias feministas, quadrinhos, poesia (!) e até conseguir riscar alguns clássicos da minha interminável lista de pendências literárias, eu consegui. Eu até poderia fazer um post sobre isso, sobre as minhas leituras, mas decidi fazer sobre uma, em específico, porque o timing foi perfeito e a identificação quase imediata.

Como vocês já descobriram pela imagem-título, eu estou falando do “Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, da Ottessa Moshfegh.

Caso você ainda não saiba nada sobre o livro, eu vou resumir bem rapidinho: a estória, narrada em primeira pessoa, se passa em Nova York dos anos 2000, pré 11 de setembro. A narradora, que não vamos saber o nome, é uma mulher que tinha tudo para ter uma vida “perfeita” (sempre assim, né?): ela era alta, magra, loira, rica, trabalhava em uma galeria de arte super cool e não tinha grandes preocupações. Porém, ela estava insatisfeita com sua vida, não conseguia ter nenhum tipo de afeições ou amores (ela até tinha uma melhor amiga, mas não a suportava, e um namorado uó) e decidiu dormir por um ano inteiro.

Simples assim.

Enquanto eu lia esse livro, eu enfrentava a minha depressão. Até fiz um post no medium para relatar o meu processo de descoberta, aceitação e evolução da doença, mas não foi pra frente. Lembro que, assim que o psiquiatra me receitou o remédio, senti medo, uma enorme sensação de incapacidade e vontade de dormir e nunca mais acordar. Como a narradora do “Meu Ano de Descanso e Relaxamento”. Para mim, era claro e simples que eu estava com medo e me sentindo fraca para enfrentar mais esse problema, mas para a nossa narradora, seu ano de descanso seria como um reboot. Um “reiniciar” quando o computador o trava. Um fresh start. Recomeço - e nós sabemos o quanto recomeços e seus rituais são importantes pra gente, né? Vivemos isso ano-novo após ano-novo e assistimos isso nas nossas séries favoritas.

A possibilidade de um recomeço é o que nos dá coragem de tentar, de errar, de viver.


Ilustraa: Chicago Booksellers Book Club
E então, por isso, nossa narradora decide tirar esse ano para descansar. Ela arruma uma psiquiatra excêntrica (e irresponsável) para liberar uns remédios para ela. Durante a leitura, você até reconhece um remédio ou outro, afinal, todo mundo toma remédios controlados (e se não toma, conhece alguém que sim). Não estou sendo exagerada ao escrever essa frase, já que só o Brasil consome 56,6 milhões de remédios para dormir, por ano, e o número aumentou 560% em oito anos. Apesar de ser alarmante, não assusta - e não assusta porque já faz parte da nossa vida. Da minha, pelo menos.

Durante o seu “retiro”, a narradora usa diferentes remédios, mas o grande destaque, mesmo, é o Infermiterol, que apesar de dar a ela o sono que procura, também dá pequenos sopros de vida durante todo esse processo. É durante o uso de Infermiterol (que, claro, é fictício) que ela sai de sua confortável bolha cheia de filmes decorados, roupas de cama já marcadas pelo suor e biscoitos de bichinho, para acessar emoções, dar suporte à uma amiga e se fazer presente. Mesmo sem estar, de fato. Enquanto ela acha estar vivendo um sonho distante e nublado, a vida acontece como se ela tivesse ligada em piloto automático. Mesmo dormindo, como o planejado, a vida continua acontecendo de uma forma que foge de seu controle. Como sempre.


“Meu Ano de Descanso e Relaxamento” traz tanta identificação que, por ser em primeira pessoa, faz pensar que são nossas palavras impressas em um livro de capa bonitinha. Ainda que não sejamos lindas, loiras e herdeiras, tenho certeza que muitas de vocês também dariam tudo para se afastar dos problemas e aguardar por resoluções mágicas que não dependem de você. Que também adorariam dar tempo ao tempo para que as coisas magicamente se consertassem e que a vida finalmente entrasse nos eixos. Infelizmente, não é possível e, assim como no livro, a única coisa que vai trazer mudanças é ir à luta e reassumir o controle - e as responsabilidades - de nossas ações. É viver a vida como ela é.

Sem infermiterol, porém, presente.

Atenta e forte, já diria Gal Costa.

E assim, iniciamos 2020. Presentes. Atentas. Fortes!
Sigamos! ⚡️

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