Aziz Ansari, Cat Person e dates ruins

Por que aceitamos encontros horríveis e não vamos embora?


Há algumas semanas, um conto publicado na New Yorker viralizou. “Cat Person” conta a história de Margot, uma garota de 20 e poucos anos que trabalha em um cinema cult, flerta com um cara que estava comprando um ingresso e ficam trocando mensagens por um tempo, antes de marcarem um encontro. Contrariando as expectativas da protagonista, o date é meio ruim, mas ainda assim, ela vai pra casa dele, afinal, eles trocaram mensagem por muito tempo e não era possível que o encanto não fosse reaparecer. Só que não reapareceu. Já no apartamento dele, ela percebe que não estava mais interessada, que ele nem era tão bonito quanto ela se lembrava e, apesar de todas as decepções da noite e da conclusão de que ele não era tão legal assim, ela transa com ele. E é uma bosta.

O conto viralizou, a princípio, porque traz na narrativa uma história que quase toda mulher já viveu: a do sexo ruim porque “já estava lá mesmo”. Se me permite o spoiler, depois de transar com o indivíduo, Margot some porque não curtiu o rolê, ele dá uma surtada por mensagem e chama ela de vagabunda porque não soube lidar bem com a rejeição — mais um fator que nos promove identificação. Eu indico a leitura porque esse conto incomoda, já que imediatamente você se lembra de algum date do tipo. E do famoso sexo “já to aqui mesmo”.



Cat Person abre uma discussão sobre encontros e como lidamos com eles. Após a leitura, eu pensei muito sobre a forma com que eu enxergo um date e cheguei a conclusão de que por mais que você vá para um, sem expectativa, você tem expectativas. Quer dizer, ainda que você não saia de casa esperando por uma noite incrível, você quer que aquela noite seja incrível e não importa o quanto suas expectativas estejam baixas, elas existem. Quando estamos em um date, nós precisamos lidar com as nossas e com as do outro e esse é o grande lance (e talvez problema?) das relações no geral: os alinhamentos de expectativas. Às vezes o que é incrível para mim é péssimo para o cara e vice-versa e, por isso, o diálogo é imprescindível em qualquer situação que envolva essas duas pessoas. No date, no pós-date e no sexo, principalmente.

E então, chegamos ao caso do Aziz. Se você não acompanhou a história, eis o resumo: uma fotógrafa de 23 anos relatou para um site que foi abusada pelo Aziz Ansari e teve a pior noite de sua vida com ele. A internet pegou fogo: como assim Aziz Ansari, um cara que foi ao Globo de Ouro com o broche do #TimesUp? O cara que roteirizou um dos episódios mais geniais sobre privilégio masculino da história das séries americanas? O cara que escreveu Modern Love? Não fazia sentido e eu custei a acreditar que o meu Aziz Ansari estava morto. Quer dizer, que ele era um abusador em potencial.

Então, fui ler o relato da fotógrafa.


Longe de mim querer silenciar uma mulher, até porque esse date pode ter sido traumático pra ela em diferentes níveis (emocionais, físicos, enfim). Porém, pelo seu próprio relato, ela não foi abusada: ela teve um encontro muito ruim. E isso também é problemático.

No texto, fica nítido que as expectativas estavam completamente desalinhadas e enquanto ela vivia um encontro horrível, ele estava achando que estava tudo ok. Enquanto ela estava desconfortável, agoniada e vivendo um verdadeiro terror com luz baixa, música ambiente e um ator famoso do lado, ele estava achando que estavam no ápice da noite.

Sabemos que homem hetero é egoísta em sua grande maioria, principalmente quando o assunto é sexo. Mas, ainda assim, seria certo colocar Aziz Ansari no papel de abusador e ensacá-lo junto com Harvey Weinstein, Woody Allen e cia? Relativizar esse date ruim e dizer que ele não foi abuso, me coloca na posição de “passadora de pano”? Ou eu simplesmente estou enxergando-o como “mais um homem heterossexual?”.

Pelo relato da fotógrafa, Aziz foi péssimo e fico bem triste em saber que “meu Aziz Ansari” não é o cara perfeito que eu pensei que fosse, e sim “só mais um homem heterossexual querendo transar”. É óbvio que ele percebeu que ela não queria, mas segundo a lógica de um homem-heterossexual-ensinado-que-ele-pode-tudo-e-mulheres-estão-aqui-para-isso-mesmo, “eles já estavam no apartamento dele, era só relaxar”. E sabe o que é problemático nisso? É que nós já fizemos o papel da mulher que “já estou aqui mesmo, é só relaxar”. Nós já sucumbimos a uma vontade que não era compartilhada e apesar de ser consensual e não configurar abuso, deve ser discutida sim.

Sexo é um assunto que exige diálogo. Mais do que qualquer outro. Se esse desalinhamento de expectativas é nocivo em relações, nas sexuais seus danos são ainda maiores. Essa situação, tanto a do Cat Person, quanto a do Aziz me fez pensar que compulsivamente ou não, estamos nos desrespeitando apenas para não ir contra a vontade de uma segunda pessoa. E é por isso que essa discussão, que só veio à tona após a polêmica com um ator queridinho por homens e mulheres, é importante.

Com essa exposição e intrínseca reflexão, eu te pergunto: por que é que nós nos sujeitamos a viver dates ruins quando claramente não os queremos? É por causa da heterossexualidade compulsória? É sobre como nós, mulheres, fomos ensinadas desde sempre que devemos satisfazer nossos parceiros e tudo o mais? É porque estamos realmente desiludidas a ponto de aceitar qualquer merda que aparece?

Homens precisam entender que essa “culpa” e essa pré-disposição em dizer sim, que nós mulheres temos, é uma herança cultural de uma sociedade machista. Parece mais do mesmo, mas a gente repete porque a galera ainda não aprende: homens precisam entender que “não é não” e que, muitas vezes, esse “não” saiu da garganta de uma forma tão dolorida que quase a rasgou. Eles precisam entender que temos vontades independentes das vontades dele.

Eu acredito que o caso do Aziz é importante para colocar essa discussão na mesa do bar dos caras. Que um “date ruim” pode colocar em xeque uma carreira incrível e arranhar uma imagem que era intacta e fez com que toda a sua obra fosse contestada. Além disso, acredito que o assunto, junto com Cat Person, serviu para que nós, mulheres, tivéssemos um pouquinho mais de voz quando o assunto é date ruim. Nós não precisamos nem de cara bosta, nem de date bosta, nem de sexo bosta e muito menos um amor meio bosta. O não pode sair dolorido da garganta, mas agora, pelo menos, ele sai. Seja em forma de conto, ou em textos com alcance mundial.

Texto publicado, originalmente, em janeiro de 2018, no Medium

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