michele contel

sobre dores e amores desde 2010

Sobre pedidos de namoro e sobre terceirizar decisões

Eu nunca recebi uma cartinha me pedindo em namoro, na escola. A cartinha em folhas coloridas, com duas simplórias caixinhas com um "SIM" e um "NÃO" acima de cada uma delas, nunca chegou na minha mesa. Mas chegava na das minhas amigas. Uma delas, inclusive, tinha que marcar “não” em pelo menos três cartinhas até, finalmente, receber o bilhetinho do carinha que ela gostava. Quando acontecia, ela marcava um “x” com sua caneta gel favorita, dobrava com todo o cuidado do mundo e entregava a decisão ao agora-namorado com uma discrição digna de agentes secretos. Eles mal se olhavam até o pretendente confirmar a alternativa assinalada e, quando ele percebia que o “sim” havia sido marcado, mandava um sorriso e voltava a atirar bolinhas de papel nos outros colegas de sala. 

Mas comigo isso nunca rolou, não. 

Ilustra: Bodil Jane

Dei meu primeiro beijo aos 13 anos. Quase 14, já que foi no dia 27/03/2005 e faço aniversário no dia 24/05 e ele só rolou porque foi roubado. Foi aquela coisa que, quando terminou, me deixou estupefata. “Eu beijei esse menino? É sério?”. Eu não era apaixonada, não tinha escrito sobre ele no meu diário e muito menos imaginado nós dois no cinema. Até esse fatídico dia, eu já tinha enviado muitas cartinhas a vários meninos por quem fui apaixonada platonicamente. Se você me perguntar, lembro o nome deles até hoje: Luiz Guilherme, Weverton e Marcos Vinícius. Mandava figurinhas de bala Freegells com cantadinha do Frajola. Mandava cartas tão apaixonadas que só outra garota de 11 anos poderia entender a intensidade. Já mandei bilhetes. Já fiz declarações nos cadernos de enquete. Mas pedir em namoro, ou ser pedida, jamais. 

Alguns meses depois do fatídico primeiro beijo e de mais dois outros, eu fui pedida em namoro pela primeira vez. Não foi com cartinha. Foi no cara-a-cara e, menina, eu travei. Eu queria dizer não, mas disse sim (guardem essa informação porque ela se repetirá no futuro dessa narrativa). Terminei exatamente uma semana depois e, sem vergonha alguma, cunhei a famosa frase “não é você, sou eu”. Hoje eu entendo que a frase que faria mais sentido seria “não fui eu e, sim, você”. 

Dois anos depois, aos 16, me apaixonei (de verdade) pela primeira vez na vida. Nos conhecemos no Orkut e passávamos madrugadas à dentro nos falando. Trocávamos músicas .mp3 pelo MSN. All Time Low, Panic! At The Disco e Fall Out Boy. Indicávamos livros um para o outro. Oscar Wilde, Alice e os russos. Nos abríamos sobre absolutamente todo e qualquer assunto. Foi a primeira vez que alguém me conheceu tanto, mesmo sem me ver. Quando nos conhecemos pessoalmente, mais ou menos 6 meses depois da nossa primeira conversa, ele me pediu em namoro. Com aliança e sorriso de orelha a orelha. Eu já sabia que o pedido viria - e aceitei de coração aberto, cheio, feliz. 

Três meses depois, ele terminou comigo e eu conheci o sabor amargo do término. Da fossa. Da vontade de chorar até o mundo acabar. Mas, dois meses depois, conheci meu segundo namorado. Sou de gêmeos com ascendente em sagitário, amigas. Se a lua em peixes me faz sofrer com intensidade, meu sol e ascendente me fazem superar rapidinho. Velocidade é a minha palavra, como boa filha de Mercúrio, que sou. 

Voltando ao meu segundo namorado, éramos amigos e saíamos todo o fim de semana. Era eu e cinco ou seis caras tontos que me faziam rir até chorar. Eles, que eram mais velhos e já dirigiam, se revezavam para me buscar em casa. Quando menos percebi, era esse meu amigo quem sempre me buscava e, sem grandes movimentos, nos apaixonamos. Dessa vez, um mês depois do primeiro beijo, fui eu quem pedi ele em namoro. Era meu aniversário e eu tinha certeza que ele me pediria em namoro naquele dia, já que tinha conhecido sua família. Era 23h quando eu o fiz porque percebi que ele não faria. Pedi. Ele aceitou. Quase completamos 3 anos de namoro, antes de eu terminar. Tínhamos sonhos diferentes e apesar dele ser uma das pessoas mais legais do mundo, eu sabia que eu não cabia no futuro que ele queria. Eu queria o mundo e ele queria… Bem, até hoje eu não sei completar essa frase. 

Duas semanas depois, saí com um cara e, no primeiro encontro da minha sonhada vida de solteira, ele me pediu em namoro. Soa familiar, não? Mais uma vez, eu fiquei desnorteada e, sem saber o que respondia, respondi que sim. Eu tinha 19 anos e não muito traquejo social. Meu feminismo não existia e minha segurança era nula, então, eu simplesmente não consegui dizer não. Levou um ano para eu terminar (ele era uma pessoa incrível e que tenho um carinho enorme até hoje) porque não era pra eu ter namorado. Eu não queria. “Não é você, sou eu”. É que não fui eu. 

No meu terceiro namoro, foi eu quem o pediu em namoro, de novo. Estávamos saindo há semanas, ele visivelmente apaixonadíssimo (mais que eu, até) e decidi que seria legal tentar. Pedi, ele aceitou e comecei o meu relacionamento mais intenso. E entre idas e vindas e voltas e retornos e danças e tropeços e muitos machucados, eu terminei. E foi a coisa mais difícil que eu fiz na vida, até aquele momento. Foi tão, tão difícil, que demorei vários anos para namorar de novo. Antes de ao menos pensar em outra relação, eu precisava me re-conhecer. Tudo tão intenso - e complicado - que eu esqueci um pouco quem era a Michele. De verdade. 

Vocês podem acompanhar todos os meus textos de 2014 em diante, para entenderem. E se você me lê desde sempre, sabe exatamente como tudo foi difícil. Tem tudinho aqui no blog, literalmente como um diário público. Tem minhas declarações de amor eternos, tem minhas dores e angústias. Apesar de não querer romantizar abuso, eu preciso dizer que nesse caso a dor me fez aprender algo que eu não sabia, até então: a me priorizar e não fazer absolutamente nada que eu não quisesse fazer ou não tivesse certeza. 

E então, 2018.

*música romântica de fundo*

Em 2018 eu já estava muito bem resolvida da minha vida. Amava ser solteira, amava a minha rotina, amava as surpresas que as noites me rendiam e já sabia lidar com frustrações e domingos solitários. Estava bem, estava feliz, estava me amando e principalmente, estava completa. Mas aí, como um roteiro de comédia romântica, eu conheci meu atual namorido. Nos conhecemos, saímos várias vezes, nos apaixonamos. Ele passou a fazer parte da minha vida e dos meus eventos e eu dos dele. Já estávamos “namorando”, mas eu, como uma garota do interior que gosta de rótulos, que só se sente confortável em ter certeza das coisas (Meio do Céu em Virgem), chamei ele no canto e envolvidos pelo álcool e com os olhos apertados por ser tarde da noite, eu o pedi em namoro. Ele rolou os olhos e disse: mas já não estávamos namorando? Eu fiz que não com a cabeça. Expliquei que só valia quando era definido. Ele deu risada. "Que bom que você pediu, então". 

Com isso, com esse passeio por toda a minha vida amorosa, eu constato que eu gosto de ter o controle das coisas. Principalmente no amor (vênus em touro e mercúrio em touro). Eu odeio esperar que decidam qualquer coisa por mim. Se eu não gosto que escolham minha comida, por que é que eu vou gostar que escolham o momento certo de eu começar um relacionamento? Se quando adolescente eu não conseguia falar não, com o tempo eu aprendi que minha vida era somente minha e que ninguém além de mim deveria decidir qualquer coisa em meu lugar. 

Eu sei que o pedido de namoro é emblemático e que a gente sonha com isso. Sei que tem mulheres que nunca tiveram essa experiência e que faz sim sentido pra elas. Eu entendo, eu respeito e eu concordo. Mas pra mim, pela minha experiência, soou como invasão. E eu percebi, de um jeito não tão poético, mas bastante efetivo, que não tem nada mais romântico do que ser a dona da sua história. 

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