logo eu, que amava escrever

não sei precisar qual foi a última vez que escrevi algo que teve algum impacto na minha própria existência. não me lembro quando foi que eu arranquei algo que estava grande demais para o meu peito e transformei em textos longos e cheios de palavras combinadas. olhei meus rascunhos aqui do blog, aquele mar de textos nunca finalizados e que, caso ou outro, serviam como uma espécie de transcrição de uma sessão de terapia. constato o óbvio:

eu não me lembro quando foi a última vez que escrever foi o que já significou um dia, pra mim.


eu nesse exato momento

veja bem, eu estou trabalhando muito. muito mesmo. talvez seja a minha época mais cheia de trabalho e, não sei se você sabe, caro leitor imaginário, mas eu trabalho escrevendo. felizmente, escrevo sobre coisas que eu até gosto, mas não amo. não que eu acredite ainda que eu precise amar o que faço. mas acho que escrever tanto, todos os dias, sobre assuntos que gosto, minou toda a minha vontade de escrever pra mim. acho que fiz tanto o que amo que passou a detestar meu ofício. 

confúcio, você me prometeu! 

aqui no blog, esse mausoléu virtual que já foi muito frequentado outrora, mas que hoje acumula poeira, alguns gatos pingados e uma zeladora indisciplinada, eu já escrevi sobre muitos problemas e dilemas. acreditei, por muito tempo, que o sofrimento era inerente a inspiração. vocês sabem, até sobre isso especificamente eu já escrevi. mas se eu precisava da angústia para criar, por que é que eu não consigo mais? vivemos um desespero coletivo, uma ansiedade sofrida em grupo e, ainda assim, nada de vontade de escrever. de pensar que eu encontrava até mesmo numa mensagem não respondida drama suficiente para um longo texto.

constato que não me falta problema. me falta paixão, mesmo. 

estou vivendo um momento em que eu pondero todas as minhas palvras. apaguei meu twitter velho e comecei um novo, para eliminar todos os pensamentos verbalizados há mais de uma década. dei uma boa sumida do instagram porque não acredito que tenha algo realmente interessante pra falar. venho lendo mais do que li no ano passado inteiro e, portanto, achando que tudo que precisava ser escrito, alguém já o fez. 

mas aí, chega a segunda-feira. as demandas por textos que eu executo em poucos minutos. o calendário editorial lotado. as reuniões de pauta. enquanto minha pessoa física se sente exausta até mesmo para escrever um desabafo, minha pessoa jurídica faz mais um texto sobre algo que a internet inteira já leu, mas que a marca para a qual presto serviço precisa se posicionar. respiro fundo, tomo três copos americanos de café e digito. tac tac tac tac tac. mais uma reunião. um brainstorm aqui, um copy lá. mais um café. tac tac tac. mais um expediente finalizado. tomo banho, deito no sofá, assisto big brother - algo que também faz parte do meu trabalho, veja só. deito na cama, leio até pegar no sono. antes de me entregar aos deuses dos sonhos, suspiro. "que saudade de escrever assim", lamento. 

e aí, mais um dia idêntico ao anterior começa. 

tac tac tac tac. 

3 comentários

  1. estou passando por uma situação parecida, mas também oposta. nunca senti tanta vontade de escrever, nem tive tantas ideias. estou me programando para ser periódica pela primeira vez na vida, sempre escrevi com tristeza e emoção, vomitando o que não aguentava mais... estou me preparando para casar escrita com calendário, o que me deixa esperançosa e preocupada. mas sei bem esse gosto de não se sentir tão feliz assim com o ofício, mesmo que seja o desejado para a vida. já dizia seu madruga: trabalhar não é ruim, ruim é ter que trabalhar. se não fosse uma exigência ou uma rotina imposta, talvez a paixão fluisse solta. ou talvez não, também. a vida é feita de altos e baixos. e estamos bem embaixo nos últimos tempos, então escrever ou importa muito, ou é exigir demais de si.

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  2. Não sei se o nome disso é apatia. Eu preciso estar em movimento para conseguir escrever, mas essa pandemia cortou totalmente minhas pernas

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