Para Bianca, Hiandra e Juliana.
“Parecia que o mundo inteiro estava lentamente sendo despido da inocência. Ou talvez eu estivesse vendo tudo um pouco claro demais.”
— Patti Smith, Só garotos.
2009
— E aí, passou? — minha amiga me perguntou, ansiosa, pelo telefone. Eu estava na linha com Bia, minha melhor amiga desde que tenho 12 anos. Esperávamos ansiosas, observando o site carregar a lista de aprovados no vestibular, enquanto eu enrolava nervosamente o fio do telefone nos dedos. Ela aparentava estar tão nervosa quanto eu, o que não fazia muito sentido, já que ela sabia que havia conseguido e que faria uma faculdade federal. Tinha alguns dias que Beatriz recebeu a resposta de que tinha passado na UFSC e que faria Ciências Sociais em uma cidade a mais de 600 km de distância de São Paulo. Descobrimos a aprovação exatamente desse mesmo jeito: penduradas no telefone enquanto o site carregava lentamente. Quando ouvi ela gritar sua comemoração do outro lado da linha fiquei imensamente feliz por ela, mas também um pouquinho triste por saber que minha melhor amiga ficaria tão longe. Beatriz, sensível como um X-Men, percebeu o mínimo tom de descontentamento que eu tentei esconder no meu "Parabéns, você é incrível e eu sabia que você conseguiria" que eu disse no telefone. Ela nunca me falou, mas eu simplesmente sabia que ela tinha percebido. Desde então, ela passou a viver pela minha aprovação também. Ela sabia que se eu passasse na universidade que escolhi, nossa despedida ficaria 3% menos dolorosa. Pra ela, pelo menos. Ao contrário de Beatriz, que resolveu fugir para o Sul do País, eu optei por fazer Jornalismo na Unesp, em Bauru, uma cidade do interior de São Paulo e que ficava no máximo a 4 horas de distância. Eu até poderia fazer USP, mas meus pais disseram que a experiência de viver em uma cidade diferente só por conta da universidade era impagável. Como Beatriz também não ficaria em São Paulo, resolvi aceitar o conselho. Em Bauru, eu ainda poderia ver meus pais e amigos nos finais de semana e minha vida não seria assim tão afetada. Mas isto é, se eu passasse. — Ainda tá carregando… — respondi com a boca cheia de bolacha recheada, enquanto olhava a ampulheta do cursor do meu mouse passear pela tela. — Meu Deus, me passa sua senha que eu vejo por aqui! Você não disse que sua internet, agora, era banda larga? — Bia perguntou ansiosa. — É, mas ainda é horrível. A única coisa boa é que agora não dependo mais da linha telefônica pra me conectar, porque de resto… — comecei a reclamar, quando a página finalmente carregou. — CARREGOU! Deixa eu ver, deixa eu ver… Fui lentamente procurando meu nome entre as infinitas Anas que existiam na lista de aprovados da Unesp. Ana Amélia, Ana Beatriz, Ana Carolina… Propositalmente eu me demorava em cada um desses nomes, porque cada segundo passado na lista, era mais um segundo que me distanciava de uma possível falha de não ter entrado. Era mais um segundo que me separava de uma Beatriz condescendente tentando me consolar, de uma sensação de fracasso e de um plano de contigência dele. Ana Carolina Bastos, Ana Carolina Borges… — ANA CAROLINA BRAGA! — gritei no telefone, pulando da minha cadeira e derrubando o pacote de bolacha no chão. Meu cachorro, Alfredo, ficou enloquecido com a gritaria e passou a fazer parte da minha festa, o que fez com que a Bia ouvisse não só os meus gritos, mas também os latidos do cão. — EU TINHA CERTEZA, CER-TE-ZA! — Bia comemorou comigo. — Parabéns, amiga! Eu sabia que você conseguiria! — disse de um jeito carinhoso típico de Beatriz. Enquanto Bia dizia o quão orgulhosa estava, eu terminei de ler a frase que acompanhava o meu nome na imensa lista de aprovados do vestibular: LISTA DE ESPERA. Meu coração disparou, eu senti como se meu estômago recebesse cubos e cubos de gelo enquanto minha pressão caía. Eu não tinha passado. Eu não tinha sido aprovada. — Você sempre foi genial, amiga! Eu sabia que a Unesp seria fichinha pra você! — Beatriz continuava enchendo minha bola e eu não tive coragem de desmentir. Eu percebi que minha falsa aprovação era um alívio também para ela e eu não conseguiria lidar com outra frustração além da minha. — Vou lá contar para os meus pais e depois entro no MSN … — eu disse, tentando soar animada e rezando para que a Bia não usasse seus poderes de X-Men em mim novamente. — Vai lá, conta pra eles e depois fique online pra gente combinar uma comemoração. PARABÉNSSSS! — ela disse alegre, antes de desligar o telefone. Coloquei o telefone no gancho e segurei minha própria cabeça ao reler meu nome em lista de espera. Era meu nome, meu RG, era eu, nem aprovada e nem reprovada: ali, no limbo. Fazia muito sentido porque em tudo na minha vida eu fiquei no limbo, no indefinido. Eu nunca apareci nas listas das meninas bonitas da sala, mas também nunca figurei nas mais feias. Nunca fui chamada para um encontro por nenhum carinha da escola, mas já dei fora nos pirralhos do prédio. Eu nunca fui a mais inteligente, mas também estava longe de ser a menos informada. Comum. Eu era ridiculamente comum e esquecível.
Saí da frente do computador e fui até a cozinha, onde minha mãe fazia o almoço e Ana Karina, minha irmã mais nova, jogava algum jogo pixelado no seu Nokia. Nós duas éramos extremamente parecidas com a minha mãe: cabelos e olhos castanhos, pele branca, sardas pelo nariz e uma boca grande demais para nosso rosto. Nossa diferença, além dos 4 anos de idade, era a altura: enquanto minha irmã não passava dos 1,50cm eu já tinha passado do 1,70cm — e morria de medo de continuar crescendo. Minha mãe era ainda mais alta e me disse que cresceu até os 18 anos, o que me apavorava. Me sentei ao lado da Karina e contei sobre meu mais novo fracasso.
— Não passei — eu disse rápida e timidamente. Minha mãe olhou pra mim, parando de mexer o cozido que estava fazendo e minha irmã finalmente tirou os olhos do celular.
— Sério mesmo, filha? — minha mãe perguntou com um tom odiosamente condescendente, mas que é meio comum em mães. Fiz que sim com a cabeça e ela me esmagou entre seus peitos — NÃO SE PREOCUPE, MEU AMOR… UNESP NEM É TÃO INCRÍVEL ASSIM E O QUE NÃO FALTAM SÃO POSSIBILIDADES PARA ALGUÉM TÃO BRILHANTE… — ela dizia meio rápido demais, provavelmente com medo de que eu começasse a chorar. Até parece que ela não me conhecia.
— Eu estou na lista de espera… — confessei de um jeito tímido assim que ela me soltou. Minha mãe mudou sua expressão.
— Em que posição? — ela perguntou, agora se afastando para me olhar direito.
— Não sei, mas no começo. Quarto, eu acho. — Respondi tentando fingir desinteresse.
— ENTÃO VOCÊ MEIO QUE PASSOU, ANA CAROLINA! — minha mãe concluiu como se fosse algo tão óbvio quanto a água ser molhada — Quando passei em Psicologia, também tinha ficado em lista de espera. 6º lugar!
— Isso significa que seu quarto vai ficar livre? — Karina perguntou totalmente inabalada pela minha reprovação. Ok, pela minha não-aprovação-imediata, mas ainda assim, não-aprovação.
Eu rolei os olhos e trouxe a fruteira do centro da mesa para mais perto de mim, a fim não só de pegar uma banana, mas também de me esconder.
— Nem a pau. — Respondi pra caçula — Primeiro que né, eu não passei — disse, olhando especificamente para minha mãe. — Segundo que Bauru fica a 4 horas daqui e eu vou voltar nos finais de semana… — eu disse enquanto descascava a fruta. Minha mãe voltou para as panelas e falou, sem olhar pra mim.
— Ana Carolina, lista de espera é uma boa notícia. Eu acho realmente que você deveria comemorar. E outra coisa… Você sabe que na prática não vai ser bem assim, né? — Ela disse, com seu tom maternal — Eu quero dizer… faculdade é cansativo, a cidade não é exatamente próxima e você vai começar a construir uma nova vida. Foi assim comigo, quando fiz faculdade lá. E foi assim com seu pai, que também não era de Bauru.
— Não vou me afastar da minha vida, mãe. Eu só vou fazer uma faculdade, não vou virar outra pessoa — eu disse, um pouco mais irritada do que eu gostaria. — E EU NEM PASSEI! — Explodi.
Vi minha irmã olhar pra mim, com atenção, pela primeira vez desde o início dessa conversa e ouvi minha mãe respirar fundo. Sabia que essa minha irritação não era pela minha mãe ou pelo que ela disse. Era ainda por causa do meu fracasso e pela escolha de Bia em ir para tão longe das nossas vidas.
Bia era a pessoa mais incrível que pisou no colégio Darcy Ribeiro. Lembro perfeitamente de quando ela chegou na sala de aula, usando um vestido curto e leve com estampas de margaridas. Ela usava uma Melissa quadriculada com meias brancas e eu achei a combinação incrível, muito mais alegre e vibrante que meu uniforme gasto e minha bermuda jeans desbotada. Eu me sentava no fundo da sala e só tinha lugar vago ao meu lado. Nunca fui a pessoa mais popular do mundo e com frequência eu passava o tempo livre das aulas jogando em um minigame cor-de-rosa que um parente tinha comprado no Paraguai.
— Plateia difícil, hein? — Beatriz disse enquanto escorregava pela cadeira e tentava se esconder atrás do enorme livro de Biologia. Eu comecei a rir e, com aquela única frase, senti mais afinidade com ela do que com qualquer outro aluno.
— Você não viu nada… — respondi baixinho. — Bem-vinda ao Darcy. Você vai detestar! — eu disse rindo. Até hoje não sei se foi de simpatia ou de nervoso.
— Obrigada por isso! — ironizou Bia. — Eu sou a Beatriz, mas a não ser que você esteja brava comigo, por favor, me chame de Bia. Mas só Bia. Bi é o apelido da minha irmã, Bianca, e isso sempre me dá dor de cabeça… — ela disse atropelando as palavras.
— Tá bom, Bia! Eu sou a Ana. Ana Carolina, mas prefiro só Ana.
— Combinado, só Ana! — ela disse rindo, como se meu nome fosse "Sóana". Achei ela tão boba… Acho que foi por isso que viramos amigas.
Parecia que eu me arrumava para um velório, que se você parar pra pensar, não deixa de ser também uma despedida pomposa para alguém que estava partindo. Eu sei que veria Beatriz de novo, mas não conseguia não ficar triste com essa mudança. Até hoje, sempre fomos nós duas contra tudo e contra todos. Foi ela que me desafiou no Verdade ou Desafio a dar um beijo no Daniel, na oitava série, e assim finalmente perder o BV. Foi a Bia que me emprestou meu primeiro sutiã de bojo e eu pude ver como seria a minha versão com peitos antes mesmo deles aparecerem. Foi a Bia a minha dupla de literalmente todos os trabalhos da escola até o terceiro ano, com exceção de Biologia, que o professor Renato fez duplas aleatórias e eu passei o 1o ano inteiro fazendo os projetos com o insuportável do Tomás. Foi com a Bia que eu vi o primeiro show do McFly, com ela que ouvi o “Wonderland” pela primeira vez e foi ela quem me deu meu fichário alaranjado de presente. Eu não sei quem é Ana Carolina sem Beatriz. E honestamente, não estava muito animada para descobrir.
— Ô assombração, sua amiga chegou — minha irmã interrompeu meus pensamentos abrindo a porta do meu quarto e olhando com cara de tédio.
— Assombração o seu…
— Tô brincando! — ela me interrompeu meu palavrão — Tá até que bonita! Tá parecendo aquela mulher do clipe do My Chemical Romance, lá, a Helena…
Joguei uma almofada que estava próxima na minha irmã, que fechou a porta antes de ser atingida. Olhei no espelho e ela tinha um pouco de razão: eu usava um vestido de renda preto, nem tão curto e nem tão comprido. Minha maquiagem forte me fazia parecer mais branca do que eu já era e o olho carregado conseguia dar uma dose extra ao meu drama de sempre. Coloquei um All Star preto de cano alto, mas peguei uma bolsa prateada pra dar uma quebrada no visual emocore. Não deu muito certo, mas funcionou como um ótimo look.
— Celular, iPod, chaves, carteira… — eu fui conferindo o que estava na minha bolsa enquanto saia pela sala — Gloss de melancia… Acho que não falta nada!
— Camisinha? — sugeriu minha mãe, sem desgrudar os olhos da tela da televisão. Meu pai e ela assistiam a algum filme de zumbis.
— Aff mãe! — ralhei.
— Você devia agradecer! No meu tempo, minha mãe jamais me sugeriria algo assim… — disse meu pai com seu tom apaziguador — Sua mãe é positiva em relação ao sexo e isso é muito louvável!
Rolei os olhos e decidi ignorar meu pai, que recebia um afago da minha mãe após sua defesa. Os dois eram insuportáveis.
— Estou indo! Chego antes da meia-noite! — prometi.
Eu sempre fui muito responsável. Nunca cheguei em casa depois da meia-noite, nunca tinha bebido álcool e nunca nem cheguei perto de um cigarro. O que seria o sonho de qualquer mãe ou pai parecia um problema para os meus, que sempre que podiam me incentivavam a ser "menos certinha".
— Chegue quando quiser. Não vamos conseguir ouvir, de qualquer forma… — disse minha mãe, agora me olhando. Ela deixou o balde de pipocas que estava em seu colo no sofá e se virou para me olhar séria — Ana, é sério: aproveite. Hoje é a despedida do seu ensino médio e nada vai ser tão leve e despretensioso como agora. Curta sem ressalvas. A vida fica muito menos divertida depois que crescemos.
Meu pai fingiu levar uma facada ao ouvir as palavras da minha mãe. Ela riu e rolou os olhos.
— Você entendeu. Dá pra me ajudar aqui? — minha mãe pediu, rindo.
— Sua mãe tem razão — meu pai disse, se recompondo e usando um tom mais sério — Uma dose de insensatez nunca fez mal a ninguém, Cáro. Divirta-se. E juízo, mas não tanto!
Sorri para eles e dei de ombros. Meu ponto fraco era quando meu pai me chamava de Cáro, um apelido que só ele no mundo era autorizado a usar. Ele me chamava assim porque, quando criança, eu achava que meu nome era Cáro e meu sobrenome era Lina. Meus pais nunca me chamaram de Ana, de modo que usar ele como meu nome-fora-de-casa foi minha primeira transgressão. E eles ainda acham que sou certinha demais!
— Que seja… Tô indo. Tchau! — disse, antes de fechar a porta atrás de mim.
Saí pelo portão e vi Bia no banco do carona ao lado da irmã, Bianca, dirigindo. Bianca era provavelmente a pessoa mais cool de São Paulo e qualquer pessoa que estivesse perto dela pegava um pouco dessa "legalzice". Eu adorava chegar aos lugares com ela porque automaticamente todo mundo me olhava diferente. Era incrível, me sentia uma popstar.
— Amiga, que cara de enterro… — Bia brincou, enquanto eu me sentava no banco de trás. Eu dei o dedo do meio como resposta — estou brincando! Você está linda, como sempre. Uma princesa gótica perfeita!
— Beatriz é muito básica, Ana. Você está maravilhosa! — Bianca disse e eu me senti 300% mais confiante depois da sua aprovação — Mas vamos lá, bora começar a noite! O que querem ouvir, minhas universitárias? Bia, olha aí o que tem no porta-luvas! - pediu, antes de começar a dirigir.
— Panic! At The Disco… - Bia começou a olhar os CDs que estavam guardados no porta-luvas do carro — Britney… Nx Zero… Hateen... Jorge e Mateus? - Beatriz olhou incrédula pro CD e depois para Bianca, que deu de ombros.
— Isso aí é coisa do seu pai! - Bianca disse rindo, focada no trânsito — Vai Ana, escolhe você! A Beatriz me fez vir ouvindo Alpha FM e eu estou com George Michael na cabeça. Em plena sexta-feira à noite! Ou seja, se eu ligar pro meu ex pra fazer coisas impronunciáveis a culpa é da Beatriz. E de "Careless Whisper". — disse exasperada.
— Hateen? — perguntei rindo, imaginando alguém tão legal quanto Bianca cantando algo tão brega. Decidi ignorar as coisas impronunciáveis com o ex.
— Hateen! — Bia concordou, já abrindo a caixinha e colocando o CD no rádio.
Começaram as primeiras notas de "Uma vida sem saudade" e de um jeito bizarramente sincronizado, nós três cantamos o "E de repente, tudo é escuridão. Já não tenho mais os sinais pra me guiar..." de um jeito caricato e afetado. Começamos a rir descontroladamente após o coro e, conforme o riso acabava, uma sensação estranha invadiu meu peito. Acho que eu estava antecipando a saudade.
— Entregues, meninas. Não façam nada que eu não faria! — Bianca disse assim que parou na porta do condomínio e Beatriz informou nossos nomes na portaria.
Dei uma risadinha em resposta, desci do carro, arrumei meu vestido e me olhei no retrovisor. Estranha, mas bonitinha. 100% minha estética.
— A gente te liga, tá? — Beatriz disse, dando um beijo no rosto da irmã — fica atenta ao celular!
Bianca deu risada.
— Pode deixar. Aproveitem, universitárias. Agora é o começo do resto das suas vidas. E Ana — agora ela se dirigiu a mim — se joga. Vai dar uns amassos, uma bagunçada… Você merece!
Eu sorri nervosa e encenei um "pode deixar" sem falar nenhuma palavra. Bianca deu risada e saiu com o carro. Olhei para Beatriz, que abria o portãozinho de entrada do condomínio. Fui atrás dela.
— Sabe que ela tem razão? — Beatriz disse enquanto íamos em direção à casa do Luquinhas. Já ouvíamos um barulho de som alto e me pergunto como é que os moradores não estavam enfurecidos com isso.
— Ah não, você também não! Meus pais vieram com esse mesmo papo hoje… — eu disse meio cansada.
— Então, será que as pessoas não têm um ponto? Você é muito certinha, Ana. E eu entendo e te amo por isso, mas mulher… Você precisa surtar. — ela disse a última frase me olhando sério, como se fosse um conselho de uma vida. Eu balancei a cabeça.
— Vai, vamos logo! Acho que é ali! — eu disse apontando para uma casa enorme, cheia de luzinhas na parte da frente e com um barulho quase ensurdecedor de adolescentes.
A casa era imensa. Aparentemente Luquinhas era bem rico — o que era um pouco contraditório visto que ele usava todos os dias o mesmo boné nojento —, já que além de imensa, a residência parecia meio isolada no meio de várias árvores. Era como se existisse uma "sede" do condomínio e essa fosse a casa do nosso anfitrião. Eu nunca seria convidada para uma festa assim, mas felizmente, eu era a melhor amiga da Beatriz.
Beatriz era uma das mulheres mais lindas do planeta. Ela era alta, magra e tinha um quê de Serena Van der Woodsen, de Gossip Girl, mas em vez de loira e de olhos azuis, era morena com os olhos castanhos claros e felinos. Ela poderia ser facilmente uma mistura de Eva Mendes com Blake Lively, só que adolescente. Beatriz usava uma saia jeans curta, uma camisetinha apertada e All Star branco de cano bem alto. Ela colocou seu celular, um V3 cor-de-rosa, pendurado no cinto e, pra mim, aquilo era a coisa mais legal que já tinham feito na moda - parecia pronta para um tapete vermelho do VMAs. Ela estava com o cabelo longo solto até a cintura e com uma bolsa transversal meio de pelúcia, meio de moletom, não sei, só sei que era fofo ao mesmo tempo em que era estranho. Era demais.
— VOCÊS VIERAM!!! - Disse um Luquinhas de um jeito extremamente efusivo e olhando encantado para Beatriz. Eu tenho certeza que ele não me enxergou ao lado dela, mas não poderia culpá-lo.
— Sim! Viemos! Você passou na Sanfran, né? Parabéns! — disse Bia antes de abraçar o dono da festa. Verdade seja dita: com o boné nojento aposentado, como era o caso, Luquinhas era gatinho: alto, tinha o cabelo bem preto e as bochechas vermelhas, como se estivesse sempre com frio, e os olhos castanhos claros. Impressão minha ou ele tem os olhos mais claros do que eu me lembrava?
— Passei, mas ainda não sei se vou, não. Me matriculei também na PUC, pra fazer Psicologia. Meus pais até querem que eu… — ele começou, mas foi interrompido por Caco, o baixinho marombado do terceiro B que chegou por trás dele e o segurou pelos ombros.
— Sem essa de crise existencial pós-vestibular! Hoje é dia de ficar bêbado e esquecer do próprio nome! — disse Caco feliz da vida. Sem querer, rolei os olhos e acho que ele percebeu, pois começou a falar diretamente comigo — E isso vale principalmente pra você, Ana Carolina! Deixa pra ser chata com sua galera do Jornalismo na Unesp! Hoje você precisa curtir, C-U-R-T-I-R! — soletrou.
— Tô bem de boa da sua definição do que é curtir, Caco! — respondi mal-criada. Ele riu.
— E eu parei de ouvir em "definição". — confessou e eu dei risada.
Ah, é, o Caco. Caco era um garoto baixinho e magricela até a oitava série, quando depois das férias ele voltou ainda baixinho, mas todo sarado. Começou a fazer musculação e uma série de exercícios físicos por causa da diabetes que ele descobriu depois das provas finais e voltou outra pessoa. Voltou forte, gostoso, bronzeado e com o cabelo meio raspadinho. Caco tinha um quê de skatista rebelde incompreendido, mas ao mesmo tempo, tirava ótimas notas e tinha um caderno de poesias. Não fazia o menor sentido.
— Onde eu pego uma bebida? E o que tem pra beber? — Beatriz perguntou, interrompendo.
— Tem água, refrigerante, cerveja, vodca com suco de laranja, bombeirinho, caipirinha… Meu irmão está fazendo as vezes de barman. Quer dizer, ele é o adulto responsável, mas também está bancando o mixologista ali atrás — respondeu Luquinhas, apontando para a cozinha.
— E a banda? — perguntei entusiasmada. Sabia que os meninos da outra sala tinham uma banda que fazia covers de Linkin Park com Avenged Sevenfold e, como adorava essas duas bandas, fiquei animada em vê-los tocar. Caco tocava baixo nesse grupo.
— Tudo montado! — Caco respondeu, meio que batendo continência. — Só estou esperando os outros meninos chegarem, mas o Fi e o Bruno já estão à postos. Quer dizer, enchendo a cara, mas acaba dando na mesma.
— Então vamos pegar bebidas, Ana? — Beatriz interrompeu, entrelaçando seu braço no meu. — Luquinhas, tem algum lugar onde podemos deixar nossas bolsas?
— Yep! As bolsas estão no meu quarto. Posso te mostrar onde fica, hehe — ele disse em tom de piada, mas eu tenho certeza absoluta que tinha um fundinho de verdade. — Vamos lá, eu acompanho vocês.
Seguimos Luquinhas pela sua enorme casa. Passamos pela sala com uma televisão do tamanho de uma tela de cinema e com um tapete lindíssimo com estampas geométricas. Havia vários quadros na sala, um mais lindo que o outro. Tinha uma print imensa do Keith Haring na sala e eu achei aquilo a epítome do descolado. Minha mãe poderia até ser moderninha, mas não era tão legal a ponto de ter um Keith Haring na sala.
Subimos as escadas e chegamos ao seu quarto. A cama, de casal, estava soterrada de bolsas e mochilas, o que me fez perceber que a festa estava bem mais cheia do que eu imaginava. No quarto do Luquinhas havia vários pôsteres de bandas de rock, como Metallica, Slipknot e Kiss, mas também um pôster do Ronaldinho Gaúcho perdido naquele ambiente que quase emulava uma loja da Galeria do Rock. Na frente da cama, estava o computador com uma webcam posicionada em cima do monitor, a CPU aberta com um ventiladorzinho do lado e uma poltrona meio velha que em nada combinava com toda a estética high-tech-metaleira do quarto.
Deixamos nossas bolsas na cama do dono da festa e eu me olhei no enorme espelho que ficava ao lado do guarda-roupas. Tinha uma Polaroid dele com uma menina que se parecia muito com ele, apesar de mais velha.
— Minha irmã. Ela está em Quioto estudando. E “se reconectando com nossa cultura” — ele fez aspas com a mão ao dizer a última frase.
— Que demais! — disse impressionada — E você? Pretende fazer o mesmo?
— Ah, acho que sim. Mas não agora… Agora sou imaturo demais para algo tão profundo. Preciso ser um pouco mais moleque antes de entender quem sou, de onde vim e para onde vou — confessou rindo e coçando a nuca ao se ouvir. — Eu sei que parece um papo meio bobo, mas acho que maturidade é isso. Entender quem somos hoje para abraçarmos quem nos tornaremos.
— Não poderia concordar mais! — disse com sinceridade enquanto saíamos do quarto e íamos na direção do bar.
Inevitavelmente, comecei a pensar em quem sou hoje. Até essa noite, eu era Ana Carolina, a magricela vara-pau do Colégio Darcy Ribeiro, uma das melhores alunas da sala (mas não a melhor) e melhor amiga da Beatriz Marques. Era só isso. Eu não tinha nenhuma outra coisa interessante além de ser amiga da Beatriz e de ser mais ou menos boa na escrita — o que me fez optar por Jornalismo após todos os professores indicarem esse curso como o "ideal para mim". Eu não lia tantos livros para basear minha personalidade neles (embora, de vez em quando, eu tentasse fingir que era uma das irmãs Brontë), não via filmes cabeçudos porque depois que tentei ver Truffaut, percebi que não tinha a menor aptidão para ser cult, e nem conseguia bancar ser uma nerd intelectual dizendo que escolhi Jornalismo para mudar o mundo porque o real motivo era que eu queria trabalhar na Capricho. Tirando o colégio e a Beatriz, eu não era nada além de uma menina comum que não tinha passado no vestibular de primeira.
— Para de graça! Primeiro que você é muito mais interessante do que pensa. Segundo que você tem um blog super famoso! E terceiro que você é a gotiquinha mais linda da festa! — Beatriz disse enquanto me passava um copo de vodca com Fanta após ouvir minha reflexão sem a parte do vestibular — Eu coloquei menos de um dedo de vodca, pode tomar sem medo que você vai ficar no máximo alegrinha.
— Eu nunca bebi, Bia. Você sabe. Não sei se é uma boa ideia… — eu disse, ressabiada.
— Amiga, do fundo do meu coração: você precisaria tomar no mínimo uns 8 copos desses para ficar bêbada com a quantidade de álcool que eu coloquei aí. Juro pelo Simba! — disse, invocando seu gato para dar credibilidade.
Contrariada, experimentei a bebida. De fato, só tinha o gosto da Fanta, então achei que era ok ficar com aquele copo. Até fui dar mais um gole, quando Beatriz me interrompeu. — Não tem gosto, mas tem álcool. Toma devagar e se lembre disso! — Ela disse enquanto dava um longo gole na sua cerveja long neck. — Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço porque eu já sou calejada nessa vida de bebedeira. E tenho 18 anos!Eu dei risada com o líquido na boca, o que me fez babar um pouquinho. — Tá bom, mãe! — Brinquei enquanto saíamos para o quintal da casa. O quintal era basicamente um parque. Realmente, Luquinhas era muito rico. O palco dos meninos estava montado bem no meio, então já tinha algumas pessoas ao redor deles. Aparentemente não eram apenas os alunos do Darcy na festa, mas sem dúvidas, todos adolescentes recém-formados. Dificilmente alguém naquela festa tinha mais de 20 anos.
Bia e eu nos sentamos no gramadinho e ficamos observando o movimento. A música estava alta, mas conseguíamos conversar sem precisar gritar. Tocava alguma música do CPM 22. Ou Charlie Brown Jr. Ou Strike. Eu não saberia distinguir as três bandas com todo aquele barulho.
Olhar aquelas pessoas curtindo a festa me dava um sentimento muito ambíguo. Era um clima de despedida, mas com um misto de Ano Novo com Carnaval. Todo mundo bebia, se beijava e ria alto. Todo mundo sabia que amanhã a vida seria completamente diferente. Amanhã, provavelmente, nunca mais nos encontraríamos assim.
— Não é legal, isso? Ver todas as pessoas juntas e saber que nunca mais elas dividirão o mesmo espaço desse jeito? — Bia disse como se estivesse lendo meus pensamentos.
— Doido, né? Eu não gosto de 98% dessas pessoas e eu posso dizer que estou com saudades de cada uma delas. Até do Tomás! — Eu disse apontando o meu ex-dupla de Biologia que era uma das pessoas mais imbecis que eu já conheci.
— Acho que esse sentimento é inerente à formatura. Essa sensação de que a vida nunca mais será tão leve, que as amizades nunca serão tão fortes… — Beatriz disse isso e minha garganta fechou. Arranhei meu copo e respirei fundo. Não fazia sentido eu esconder uma angústia da Beatriz, principalmente uma que estava me deixando pra baixo na nossa despedida. Ela era minha melhor amiga, não só precisava saber do que estava rolando como merecia saber.
— Eu preciso confessar uma coisa, Bia — eu comecei, séria. Beatriz, que estava olhando para o nada, olhou para mim. Não estava preocupada, mas eu tinha toda a sua atenção.
— O que foi? Você não está grávida, está? — ela brincou para quebrar o gelo e eu dei risada.
— Quem está grávida? A ANA??? — Caco brotou no gramado e sentou ao meu lado. Literalmente, o que eu menos precisava era do Caco me interrompendo. Beatriz deu risada.
— Já pensou? Seria um bebezinho gótico lindo! — Bia começou a imaginar. — Eu seria a madrinha, não seria?
— Mas seria produção independente, né? Porque eu nunca vi a Ana com ninguém e não sei se ela leva jeito pra ser a Virgem Maria da nossa geração… — Caco disse caçoando e eu dei um soco no seu braço (que era mais musculoso do que eu esperava).
— Cala a boca, Marcos — eu disse, chamando ele pelo nome. — Nós estávamos tendo uma conversa séria aqui.
— Pô, aqui não é um lugar pra ter conversa séria, né? Inclusive, eu vim aqui pra avisar vocês que vamos começar a tocar agora! E eu vou tocar uma música especialmente pra você, Anota! — Caco disse, me chamando por um apelido que só ele usava.
Caco me chamava assim porque eu sempre emprestava minhas anotações pra ele na quinta série, quando fomos da mesma sala e, em um lapso de criatividade, ele resolveu me chamar de Anota. Do mais absoluto nada. Lembro quando ele me chamou assim pela primeira e eu me tornei a personificação de um ponto de interrogação. Desde então, nunca mais parou.
— Hummm. Vai ter dedicatória, é? — Beatriz provocou. Eu rolei os olhos.
— Já tô até vendo a palhaçada… — previ. Caco deu risada e se levantou.
— É uma música perfeita pra você. Tão perfeita que você vai me agradecer depois! — Ele disse e saiu. Eu dei risada e Beatriz ficou me olhando, como se estivesse insinuando algo.
— Que que foi? — Perguntei rispidamente, mas tentando segurar um sorriso.
— Dois namoradinhos, só falta dar beijinho… — cantou. Eu bufei.
— Errrr nada a ver. Ele provavelmente vai me zoar. E convenhamos: eu tenho pelo menos uns 30cm a mais que o Caco. Não tem nem como! — Eu disse, hiperbolizando nossa diferença de altura que, apesar de não ser de 30cm, existia. E era grande.
— Mas me fala o que você ia falar… — Beatriz retomou e meu estômago gelou de novo. Respirei fundo.
Dei um gole na minha vodca com Fanta, respirei fundo e olhei para Bia. Atrás dela a festa acontecia. As luzes estavam desfocadas pelo meu olhar fixo na minha melhor amiga. Queria memorizar aquela cena que apesar de já ter acontecido inúmeras vezes, hoje era diferente. Era a nossa última festa como adolescentes de colégio. Respirei fundo de novo e quando abri a boca, Fi, o vocalista da banda dos meninos, anunciou que começariam o show.
— Depois você fala. Vamos lá! — Bia disse se levantando e me puxando em seguida.
Levantei e fui atrás delas. Nos posicionamos perto do palco para ver os garotos e dar um apoio moral. Apesar de nenhum deles ser um gênio da música ou realmente bom, juntos eles se divertiam imensamente e isso contagiava qualquer pessoa que estivesse vendo. Eles se empolgavam tanto que até mesmo o Paul McCartney diria que eles poderiam ser bons sucessores dos Beatles. Eu juro por Deus.
— À pedidos, hoje vamos além do Linkin e do Avenged. Faremos uma apresentação democrática pra agradar todo mundo e fazer uma despedida de respeito. Então eu não quero ver uma bunda encostada na grama, hein? Luquinhas, permissão pra quebrar tudo? — Fi perguntou. Luquinhas, de longe, acenou um sim e os meninos começaram a tocar alto, forte e, ainda que não lá muito afinados, de um jeito extremamente contagiante.
Eles começaram com "Dani California", do Red Hot Chili Peppers. Era o que todo mundo precisava para se jogar no gramado e ser a plateia que eles sonhavam. Depois, cantaram “Queda Livre”, do Dead Fish. Nesse momento, o menino da guitarra (que eu não sabia o nome) tirou a camisa. Empolgado pelo movimento do amigo, o baterista achou legal tirar a calça três músicas depois. A plateia foi à loucura. Seguiram com “Quebre as Correntes”, da Fresno e eu tenho certeza que cantei mais alto que qualquer um ali — era uma das minhas bandas favoritas e eu sabia todas as músicas de cor. Gritar a plenos pulmões PROMETA NÃO CHORARRRRR E NÃO SE ARREPENDERRRR foi quase catártico. Me aliviou, tirou muito do que tinha no meu peito e me deu um pouquinho de coragem pra falar com Beatriz sobre tudo: meu fracasso, meu medo de perder sua amizade, minha incerteza em relação à faculdade, tudo.
Eu não estava bem, mas era menos pelo resultado da prova e mais pelo que eu fazia dele. Eu sabia que lista de espera tinha grandes chances de se tornar aprovação (ainda mais pra mim, que fiquei em 4o lugar). Eu sabia que no fundo Beatriz continuaria minha amiga. Eu sabia de tudo isso. Mas eu tinha medo, e era um medo tão grande e absurdo que me fazia ignorar cada certeza que eu tinha e focar nele, um sentimento irracional e que não fazia lá tanto sentido.
Olhei para Beatriz, que batia seus longos cabelos ao som das batidas da música. Era lindo ver a felicidade dela e era impossível não sorrir ao vê-la tão radiante. Eu tinha muita sorte por tê-la como minha melhor amiga, como a pessoa que compartilhou essa louca e insalubre experiência que é o Ensino Médio comigo. Beatriz merecia todas as melhores coisas do mundo inteiro. Merecia o mundo inteiro, pra falar a verdade. E merecia uma melhor amiga que não mentisse pra ela.
— Bia, preciso falar com você e tem que ser agora — eu pedi quando a música acabou. Ela assentiu com a cabeça e começamos a nos afastar do palco.
Em uma irritante coincidência, Caco nos interrompeu novamente. Ele pegou o microfone e começou a falar.
— Essa aqui é pra uma pessoa que merece, mais do que ninguém, quebrar tudo hoje. Que PRECISA — ele enfatizou o "precisa" — quebrar tudo, tocar o foda-se e ser menos certinha. Precisa escrever menos e viver mais. Anota, essa é pra você. "Espero que você cante comigo e pegue uma linha emprestada" — ele gritou e eu sabia que música viria.
Não posso negar: eu senti algumas coisas diferentes no meu estômago e, dessa vez, não eram cubos de gelo de ansiedade.
Are we growing up or just going down?
Are we growing up or just going down?
Fomos até o quarto do Luquinhas e como todas as pessoas da festa estavam no gramado, tínhamos todo o silêncio e privacidade do planeta. Afastamos algumas das bolsas que estavam na cama dele e nos sentamos de frente uma pra outra.
— Primeiro, por que você mentiu pra mim? — Beatriz perguntou serenamente. Eu bufei.
— Eu não menti pra você… Eu fui afoita e quando li meu nome, apenas gritei. Depois, quando eu li o restante da linha onde estava escrito "Lista de Espera" não tive coragem de cortar sua onda. Você estava feliz e orgulhosa demais e… E eu sei porque você estava feliz.
— Por querer seu bem? — ela perguntou como se fosse óbvio.
— Também. Mas também por se sentir culpada por me deixar e ir para Florianópolis… — eu disse cabisbaixa, um pouco envergonhada de falar aquilo.
Ouvi Beatriz dar uma risada meio abafada e olhei pra ela.
— Ana, você tá viajando. — ela disse simplesmente. Ela pegou minhas mãos e começou a falar pausadamente — Primeiro que eu não estou culpada por ir pra Florianópolis. Estou feliz por seguir minha vida e viver minhas escolhas. Segundo que eu sei que você está mexida com a minha mudança, eu não sou boba, mas sei também que isso não faz sentido. É claro que a gente não vai mais ficar o dia inteiro enfiada na casa uma da outra e nem estudaremos juntas, mas a amizade, essa aqui, é muito maior do que qualquer outra coisa. Você é minha irmã, Ana. Eu não consigo imaginar minha vida sem você.
E então eu comecei a chorar.
Parecia que todo o peso que eu sentia desde a aprovação da Beatriz foi tirado do meu peito simplesmente porque ela me disse que ficaríamos bem.
— Acho que eu não sei lidar com despedidas… — confessei.
— Não mesmo. E você pensa demais, amiga. Às vezes as coisas são como são. Não existe nenhum subtexto, uma mensagem subliminar, nada. Muitas vezes a vida é mais simples do que a gente imagina. — ela disse, como se estivesse ensinando as vogais à uma criança. Eu rolei os olhos ironizando seu tom professoral e ela me deu um tapa. — E é só isso?
Eu respirei fundo.
— Eu não sei? Eu achei que fosse. Quer dizer, eu achei que estivesse triste por sua mudança. Depois, fiquei triste por causa da minha não-aprovação. Agora, que te contei tudo e que percebi que a lista de espera ainda não é um final decretado, continuo triste… Ou seja… Nada faz sentido? — perguntei rindo e fazendo um som involuntário de porquinho por causa das lágrimas. Beatriz me abraçou de novo.
— Eu acho que essa tristeza na verdade é uma nostalgia. Talvez precoce, mas ainda asim… — ela se soltou do abraço e ficou mais pensativa. Enquanto falava e mexia na ponta do seu próprio cabelo.
"Eu venho sentido um pouco disso, também… Esse final de ciclo, o do Ensino Médio, mexe muito com a gente, mesmo… Quer dizer… Tudo vai mudar. E toda mudança assusta. E nunca mais seremos tão jovens… O que eu quero dizer é que eu tenho certeza que a nossa vida vai ser muito incrível, eu sei disso, mas também sei que nunca mais teremos 17 anos de novo. E isso faz a gente sentir essas coisas, essa melancolia. Ser adolescente é um saco, mas é incrível também. Temos uma licença-poética para fazer qualquer merda por mais ou menos 5 anos e isso é maravilhoso! Se a gente toma um porre, vomita no tapete da sala, chora no banheiro e precisa tomar glicose no hospital, falam "ah, mas ela é só uma adolescente…", se somos grossas com quem não merece, dizem "adolescentes são assim mesmo…". Se estamos chorando por uma pessoa idiota por quem nos apaixonamos e que não nos merece, dizem cheios de saudade "nada como o amor da adolescência…" então, sim, dá medo de sair dessa fase. Mas sair dela é sinal de que estamos vivas. E não tem nada como estar vivo!", concluiu reflexiva.
— Esse foi um daqueles momentos dos filmes em que a protagonista faz um monólogo inspirador depois de uma epifania… — eu brinquei. Ela deu risada.
— Não deixa de ser, né? Essa é a minha introdução para o nosso terceiro ato. — ela disse rindo.
Dei risada e ficamos nos encarando por uns segundos. Ela olhou pra mim com uma ternura que nunca tinha visto antes.
— Você é minha irmã. Sabe disso, né? — disse enquanto segurava minha mão.
Eu sorri e acenei que sim.
— Eu sei, Bia. Eu sei.
Ela apertou minha mão de leve, soltou e se levantou da cama.
— Agora vamos voltar porque o seu namorado tá tocando e falando que incendiaria a cidade inteira só pra te mostrar a luz… — Beatriz disse rindo, recitando uma parte da música. Rolei os olhos.
— Ele não falou que incendiaria a cidade por mim… — eu disse, ainda que estivesse em dúvida e ignorando a parte do "namorado".
Saímos do quarto do Luquinhas, passamos novamente pela maravilhosa sala de estar da casa e voltamos ao jardim, onde a banda do Caco tocava uma versão alternativa de “Let It Be” dos Beatles.
— Nossa, isso não ficou bom, não… — eu disse rindo ao ver o baterista se matando para inserir uma batida aleatória no meio da música. Caco continuava lá tocando seu baixo cor-de-rosa e sem camisa.
Não sei quanto tempo Beatriz e eu ficamos no quarto do Luquinhas, mas aparentemente o clima da festa era outro. Era nítido que a banda estava encerrando seu show e que as pessoas já estavam ficando levemente bêbadas. O efeito da minha vodca com Fanta, porém, era nulo e eu decidi que tudo bem repetir a dose para, quem sabe, entrar no clima da galera. Bia também estava sóbria, ainda que estivesse tomando sua segunda long neck.
— Vou pegar o refil! - eu disse, apontando meu copo. Bia sorriu e assentiu.
— Vou continuar ouvindo essa versão bizarra. Me encontra aqui depois! — pediu.
Acenei com a cabeça e fui até a cozinha, que fazia as vezes de bar. O irmão do Luquinhas estava aparentemente flertando com uma garota baixinha que usava uma camiseta do CBGB. Cheguei meio sem graça com a situação e interrompi com um nada discreto barulho que fiz com a garganta.
— Hum… Oi. Será que você poderia me fazer outro desse? — Pedi, apontando meu copo transparente levemente manchado pela Fanta.
— Claro! O que tinha aí? — Ele disse de um jeito surpreendentemente simpático, já pegando meu copo. A garota continuou exatamente onde estava, olhando encantada para o aspirante a barman.
— Vodca e Fanta, aparentemente. Mas era pouca vodca porque eu não bebo… — confessei. O irmão do Luquinhas deu risada.
— Ok! Anotado! — ele disse rindo. Misturou as duas bebidas, deu uma mexidinha e me entregou o copo. — Não faça nada que eu não faria, hein? — Aconselhou. Por que as pessoas que são um pouco mais velhas gostam de dizer isso pra gente? O que eu poderia fazer que elas não fariam? Se eu mal o conhecia, como saberia que ele era capaz ou incapaz de fazer algo?
— Pode deixar! — Eu disse rindo, quando percebi que o silêncio ocasionado pelo meu monólogo interno estava começando a ficar constrangedor do lado de fora. Ele sorriu e voltou a se encostar na pia para conversar com a garota.
Saí com o copo e provei um pouco da bebida. Definitivamente tinha álcool. Antes eu não sentia o gosto da vodca, mas agora eu só sentia o gosto dela. Fiz uma careta quando dei meu primeiro gole e Caco, mais uma vez, apareceu do meu lado. Foi quando percebi que o som que tocava já era da caixa de som e que o show deles havia acabado.
— E aí, gostou? — Ele disse rindo.
— Disso aqui? Não muito, sendo bem sincera… — disse fazendo uma careta para o meu copo. Caco bufou.
— Não, Ana. Da música que te dediquei! — Disse meio sem paciência. E me chamando de Ana.
— Gostei, sim. Mas eu não entendi direito, você… — eu comecei, mas ele me interrompeu.
— Meu Deus, Ana. Você era uma das inteligentes, deveria ter entendido! — Caco disse. Eu me perguntei se ele estava realmente falando sobre me mostrar a luz e etc, até que ele continuou — Eu… eu sei de tudo.
— De tudo o que? — Eu perguntei sem entender. Dei mais um gole discreto na minha bebida-com-muito-álcool e fiz uma careta involuntária.
Caco apontou a grama e fez sinal para que nos sentássemos. Ele foi primeiro e eu me sentei ao seu lado de um jeito mais desajeitado do que eu gostaria. Fiz sinal para que ele continuasse e ele se virou levemente para mim.
— Eu não sei se você sabe mas… Eu também prestei Jornalismo na Unesp… — ele começou e eu fiquei chocada.
— Jura? E você passou? — perguntei e acho que a pergunta saiu mais ansiosa do que eu previa. Ele deu risada.
— Acredite ou não, sim! Passei! E… e eu sei que você ficou na lista de espera. — Ele disse de um jeito condescendente que me deixou louca da vida.
— Que seja. Eu posso fazer alguma faculdade aqui em São Paulo, mesmo. E tem o vestibular do meio do ano e… — eu comecei, mas o Caco continuou falando, me ignorando.
— Eu sei o quanto isso era importante pra você. E sei o quanto você é orgulhosa. E sei que a Bia achava que você tinha passado… Ou seja, eu sei de tudo. E foi por isso que eu dediquei a música pra você, porque imaginei que você estaria hiperventilando com o fato da Beatriz sair contando pra todo mundo que você tinha passado quando não passou… — percebi que Caco escolhia muito bem as palavras, ainda que falasse de um jeito atropelado.
— Hum… Obrigada por ter guardado segredo, eu acho. — respondi. Dei mais um gole na bebida. E não é que a gente meio que se acostuma com o sabor? — Sendo sincera, realmente me ajudou a ter coragem de desfazer esse mal entendido, mesmo… Mas… Como você sabe de tudo isso? Que eu não passei, que a Bia achou que eu tivesse passado e todo o resto, que essa é minha música favorita…?
Agora Caco respirou fundo. Ele pegou o meu copo e deu um longo gole e, apesar do álcool, não fez nenhuma careta.
— Como você não estava no MSN, eu perguntei pra Bia se ela sabia do seu resultado na Unesp. Quando ela disse que você tinha passado, entendi toda a situação… — ele dizia rápido, me olhando fixamente — E eu te conheço muito mais do que você imagina, Anota. Consegui entender tudo na hora. Eu sei que você jamais falaria comigo sobre isso antes de falar com a Bia, então, coloquei a música do Fall Out Boy na setlist. Os caras ameaçaram me tirar da banda, mas eu vou me mudar pra Bauru mesmo, então, tanto faz… E eu sei que você gosta dessa música porque eu leio seu blog. Você escreve bem, sabe…
— E por que você estava tão preocupado em saber se eu tinha passado? E por que você lê o que eu escrevo? — Perguntei lentamente. De repente, tudo ficou meio que em câmera lenta e eu não sei se era por causa da vodca ou por uma euforia que estava brotando lentamente no meu peito. Era como se eu ouvisse uma fanfarra tocando com muita força, só que de muito longe.
Bum, bum, bum.
— Por que…
Eu via os lábios do Caco se movendo tão lentamente que eu acho que poderia ler os 7 livros do Harry Potter antes dele terminar a primeira sílaba. Eu sentia as batidas se apossando do meu corpo e a euforia tomando o lugar de controle do meu cérebro.
— …eu acho que…
Não era impressão. O Caco estava prestes a se declarar.
— …no final das contas, a gente tem tudo a ver um com o outro. Só você não percebeu ainda.
BUM BUM BUM.
A fanfarra de dentro do meu peito agora tinha se multiplicado e eu estava cercada por um barulho que não me deixava pensar. Os pratos eram batidos com força nos meus ouvidos e eu olhava para tudo atônita, sem reação. Com muito esforço, saí de dentro da minha imaginação, deixei a banda com seu uniforme vermelho e voltei para Caco e sua frase que caiu em mim como uma bomba, mas em um ótimo sentido. Eu nunca, nenhuma vez na vida, em nenhum momento, nem por um só minuto, cogitei um romance com o Marcos Baixinho. Nunca, jamais! Mas, ao mesmo tempo em que absorvia suas palavras ("a gente tem tudo a ver um com o outro") a ideia de transformar Marcos Baixinho em Caco, Meu Caco, não parecia nada ruim. Na verdade, parecia… Certo?
— Eu… — comecei a falar e Caco simplesmente se levantou do nada. Ele me estendeu a mão e eu a apertei.
Ele me puxou e me guiou para fora da festa. Eu, como se fosse uma boneca de pano, o seguia para onde quer que ele fosse. Passamos pelo enorme jardim, pela frente da casa, pelas luzinhas. Passamos pelos vários carros estacionados, pelas árvores enormes e cheias. Passamos por umas pessoas meio perdidas, por alguns copos vazios jogados pelo gramado. Passamos por tudo isso com a mão dele agarrada à minha e por algum motivo eu simplesmente não queria que parássemos de passar pelas coisas porque daquela forma estávamos juntos e aparentemente era uma delícia ficar junto com o Caco. Não sei exatamente como foi que chegamos lá, talvez tenha perdido o processo de entrar em um veículo e sentar em um banco enquanto ficava pensando na minha mão envolta na do Marcos Baixinho, só sei que, quando percebi, eu estava dentro de um carro com ele. De quem era aquele carro? Ele ainda não podia dirigir, certo? Ele bebeu, ele definitivamente não podia dirigir, ele… BUMMMMM. Caco me beijou e silenciou absolutamente todos os pensamentos que estavam sendo gritados na minha cabeça. Foi um beijo meio apressado, eufórico. Talvez Caco também tivesse uma fanfarra tocando dentro do peito. Nos beijamos por mais cinco horas, ou quarenta minutos, ou quinze segundos. Não tenho a menor ideia de quanto tempo foi, só sei que nos olhávamos profundamente, sorríamos e nos beijávamos. Caco me apertava, eu fazia carinho do seu cabelo raspado, depois nos beijávamos mais uma vez e aí parávamos e nos olhávamos e beijávamos de novo. Enfim, não tenho ideia de quanto tempo ficamos assim, mas foi maravilhoso porque de algum jeito, o tempo se tornou um emaranhado de fios enquanto ficávamos naquele carro. Quando finalmente nos encaramos por tempo demais antes de ser aceitável emendar mais um beijo, perguntei algo que não saiu da minha cabeça em nenhum só segundo desde que entramos naquele carro:— Você não vai dirigir, né? — Perguntei séria, mas também rindo, o que fez Caco gargalhar. — É por isso que sempre foi você, Anota — ele disse me abraçando apertado.
Voltei correndo para procurar Beatriz, afinal, eu deveria tê-la encontrado de volta ao jardim há 17 horas. Ou há 34 minutos. Não sei, só que eu sumi e deixei minha melhor amiga esperando. Quando voltei (de mãos dadas com o Caco, o que invocou novamente a minha fanfarra interior porque aparentemente eu vivo nos livros da Jane Austen e mesmo tendo o agarrado por horas dentro do carro, era isso o auge de uma vida romântica para mim: andar de mãos dadas) encontrei Bia sentada no jardim com Luquinhas, rindo bastante e aparentemente muito feliz. Ela me olhou, fiz uma careta de vergonha e apontei para a minha mão entrelaçada a de Caco. Bia jogou os braços para o alto dizendo sem emitir som: "finalmente".
— Por quanto tempo eu te deixei esperando? — perguntei assim que chegamos até ela. Caco e eu nos sentamos novamente no gramado, de frente para Bia e Luquinhas.
— Não sei. E não é hora de se preocupar com isso — Bia disse sorrindo, encostando seu braço levemente no braço de Luquinhas. — E então, Caco, quais são suas intenções com a minha amiga?
Caco ficou sério.
— As piores possíveis! Alguém precisa corromper essa garota em Bauru, fazer ela matar uma aula, trocar o almoço por Cheetos, beber uma cerveja, sabe? Felizmente, eu também vou fazer Jornalismo e poderei ajudá-la com tudo isso — ele disse sem sorrir, o que fez Beatriz e Luquinhas darem risada e eu ficar encantada com aquele garoto que tinha acabado de cantar Fall Out Boy pra mim.
Voltei correndo para procurar Beatriz, afinal, eu deveria tê-la encontrado de volta ao jardim há 17 horas. Ou há 34 minutos. Não sei, só que eu sumi e deixei minha melhor amiga esperando. Quando voltei (de mãos dadas com o Caco, o que invocou novamente a minha fanfarra interior porque aparentemente eu vivo nos livros da Jane Austen e mesmo tendo o agarrado por horas dentro do carro, era isso o auge de uma vida romântica para mim: andar de mãos dadas) encontrei Bia sentada no jardim com Luquinhas, rindo bastante e aparentemente muito feliz. Ela me olhou, fiz uma careta de vergonha e apontei para a minha mão entrelaçada a de Caco. Bia jogou os braços para o alto dizendo sem emitir som: "finalmente".
— Por quanto tempo eu te deixei esperando? — perguntei assim que chegamos até ela. Caco e eu nos sentamos novamente no gramado, de frente para Bia e Luquinhas.
— Não sei. E não é hora de se preocupar com isso — Bia disse sorrindo, encostando seu braço levemente no braço de Luquinhas. — E então, Caco, quais são suas intenções com a minha amiga?
Caco ficou sério.
— As piores possíveis! Alguém precisa corromper essa garota em Bauru, fazer ela matar uma aula, trocar o almoço por Cheetos, tomar uma cerveja, sabe? Felizmente, eu também vou fazer Jornalismo e poderei ajudá-la com tudo isso — ele disse sem sorrir, o que fez Beatriz e Luquinhas darem risada e eu ficar encantada com aquele garoto que tinha acabado de cantar Fall Out Boy pra mim.
Ficamos ali sentados por só Deus sabe quanto tempo mais. O Caco fazia piadas com Beatriz sobre a nossa noite. Luquinhas implorava por mais um contato físico de Beatriz, que se divertia com o efeito que tinha sobre o garoto. Eu sorria anestesiada, como se estivesse vendo uma cena de um filme. Combinávamos nossos próximos encontros — em Floripa, na casa de Bia, em Bauru ou São Paulo, na minha — ao mesmo tempo em que outras pessoas encaravam suas despedidas. Enquanto eu passava meu gloss de melancia, percebi que ainda sentia o gosto de Fanta Laranja na boca, mesmo que ele tivesse sido diluído ao gosto do Caco, que era de cerveja e bala de menta. Com a bagunça da festa ao fundo, concluí algo que demorei tempo demais para perceber e que, talvez, só fizesse sentido agora, no final de todas essas coisas: ser adolescente era a melhor coisa do mundo. Mas maravilhoso, mesmo, era saber que ainda tínhamos todo o resto das nossas vidas pela frente.
Agradecimentos
Esse conto é baseado na primeira fanfic que escrevi na vida, aos 15 anos, que se chamava “I Want You Back". Pensei em republicá-la, mas depois de uma leitura crítica, cheguei a conclusão que não havia história — era o dia a dia de amigas que se amavam e que, por acaso, se envolviam com músicos bonitinhos. Então, eis Lista de Espera.
A amiga, Bia, é uma mistura das amigas que me inspiraram as personagens de I Want You Back: Hiandra, Juliana e Bianca. Foi de Bianca, também, a inspiração para a história da lista de espera na Unesp, uma vez que ela ficou em sexto lugar em Biologia e, desde que soubemos disso, tratamos sua aprovação como certa - e foi mesmo. Sendo assim, agradeço às minhas já citadas amigas do Ensino Médio, que foram as pessoas que tornaram essa traumática experiência em algo que ainda adoro lembrar. Agradeço minha irmã, Daniele, que sempre lia minhas fanfics antes de todo mundo e me deixava ficar horas a mais no computador. Agradeço a Leticia Orciuolo, que me lê desde os 15 anos e até hoje segue aqui, ao meu marido João, que me incentivou muito a colocar esse projeto no ar e a minha pititica Maria, que sempre fará parte dos meus agradecimentos e dedicatórias. Espero que você tenha amigas incríveis como eu tive.
Lista de Espera,
por Michele Contel
Capa Digital: Duds Saldanha
Colagem: Francisco Ferreira
Revisão: Mareska Cruz
Diagramação programação, idealização e todo o resto: eu mesma ❤︎
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